JSNEWS
MIAMI–RIO–WASHINGTON — Às 4h30 da manhã de 1º de agosto, três dias antes do julgamento marcado em Miami-Dade, o cirurgião plástico brasileiro João Batista Cunha de Araújo, 57 anos, rompeu a tornozeleira eletrônica e deixou a Flórida. Segundo o próprio Araújo, ele seguiu pela Interstate 95, embarcou em um barco de um conhecido, chegou a Bimini, nas Bahamas, voou para Nassau e, depois de uma noite de espera porque o voo para o Panamá estava lotado, seguiu para o Rio de Janeiro.
O passaporte brasileiro que ele havia entregue à Justiça americana estava sob custódia do tribunal. Ainda assim, Araújo afirma que conseguiu deixar os Estados Unidos — e sustenta que contou com ajuda de autoridades brasileiras.
“Qualquer idiota sabe sair dos Estados Unidos. Eu tive todo o apoio do consulado brasileiro”, disse ao Bad Decisions Podcast, de Scott Michael Nathan, em trecho publicado nesta quarta-feira pelo New York Post. Em outro momento, afirmou: “São todos meus amigos. Tanto a Polícia Federal brasileira quanto a embaixada brasileira me deram todo o apoio em Miami.”
O governo brasileiro não confirmou a acusação. Segundo o Post, o Ministério das Relações Exteriores respondeu que não comenta pedidos de documentos feitos por particulares. A embaixada brasileira em Washington informou não tratar de matéria consular, enquanto o consulado em Miami não respondeu às tentativas de contato do jornal.
Até agora, portanto, existe uma afirmação extraordinária de um homem procurado pela Justiça americana — e nenhuma confirmação independente de que funcionários brasileiros tenham participado de sua fuga.
O roteiro da fuga, segundo ele
A descrição da fuga não consta, até o momento, como uma reconstrução oficial das autoridades. É o relato do próprio Araújo, registrado em um trecho de cerca de dois minutos da entrevista que a produtora Hurrdat Entertainment forneceu ao New York Post.
O roteiro, segundo ele, foi simples:
- Rompeu a tornozeleira eletrônica.
- Pegou a Interstate 95.
- Embarcou em um barco com destino a Bimini, nas Bahamas.
- Voou de Bimini para Nassau.
- Passou a noite em Nassau porque o voo para o Panamá estava lotado.
- Seguiu do Panamá para o Rio de Janeiro.
Antes da fuga, diz ter testado os limites impostos pela tornozeleira. Segundo seu relato, levava malas de Amanda e voltava ao endereço onde cumpria prisão domiciliar. Podia circular até West Palm Beach, mas não ultrapassar esse limite.
Na madrugada de 1º de agosto, o equipamento emitiu um alerta de violação. Policiais foram ao apartamento de Araújo, em Bay Harbor Islands, mas não encontraram o acusado nem a tornozeleira. A Justiça revogou a fiança de US$ 20,5 mil e expediu um novo mandado de prisão, com autorização para extradição.
No dia 4 de agosto, data prevista para o início do julgamento, o banco dos réus estava vazio.
As acusações
Araújo responde a 14 acusações em Miami-Dade, 13 delas classificadas como crimes graves. Entre elas estão exercício ilegal da medicina, furto qualificado e fraude.
A investigação começou após denúncias de que ele realizava procedimentos estéticos sem licença na Miami Beauty Academy, em Aventura, na Flórida. Segundo o mandado de prisão, policiais receberam duas denúncias por meio do Crime Stoppers e fizeram uma operação disfarçada.
Um detetive se apresentou como interessado em uma lipoaspiração no queixo. Segundo as autoridades, recebeu uma proposta para o procedimento.
Uma paciente relatou aos investigadores que recebeu 17 frascos de preenchimento em uma única sessão e posteriormente desenvolveu nódulos e endurecimento em regiões do rosto. Araújo foi preso em junho de 2025, juntamente com Amanda Soares Felizardo Ungaro.
Ele se declarou inocente.
O advogado Mark Eiglarsh disse ao New York Post que não sabia do paradeiro do cliente. Em declaração anterior ao SBT, afirmou que Araújo havia ficado “indisponível”, mas que continuaria sendo defendido caso reaparecesse.
A mulher no centro da história
A fuga ganhou uma dimensão política por causa da relação de Amanda Ungaro com Paolo Zampolli, empresário italiano e atual enviado especial do governo de Donald Trump.
Ungaro manteve durante anos um relacionamento com Zampolli, com quem tem um filho. Depois da separação, os dois passaram a disputar a guarda da criança.
Em 2025, após a prisão de Ungaro na Flórida, Zampolli entrou em contato com autoridades de imigração americanas. Segundo reportagem do New York Times, ele informou que ela estava no país sem status migratório válido e perguntou sobre sua situação. Zampolli confirmou o contato, mas negou ter usado sua influência para obter a deportação da ex-companheira. O Departamento de Segurança Interna também negou que a prisão e a deportação tenham ocorrido por razões políticas.
Ungaro acabou deportada para o Brasil.
A brasileira também fez acusações públicas envolvendo Zampolli, Donald e Melania Trump e sua antiga relação com Jeffrey Epstein. As alegações foram contestadas ou não foram confirmadas pelas autoridades.
É nesse contexto que Araújo diz acreditar ter sido vítima de perseguição política.
O que ainda não está provado
Araújo não apenas afirma que deixou os Estados Unidos: diz que recebeu auxílio de funcionários brasileiros para fazê-lo. Também afirma ter relações pessoais com integrantes do consulado brasileiro em Miami e mencionou nominalmente funcionários diplomáticos e um agente da Polícia Federal.
O New York Post confirmou que Araújo fez essas declarações. Não confirmou, porém, que os funcionários citados tenham participado da fuga.
Essa distinção é fundamental.
Não há, até agora, evidência pública de que um diplomata brasileiro tenha fornecido documento para que Araújo deixasse os Estados Unidos, transportado o fugitivo ou interferido no processo judicial americano.
Também não há confirmação pública de que o governo brasileiro tenha participado da violação da ordem judicial.
O que existe é um homem acusado de 14 crimes, que deveria estar sob monitoramento eletrônico e comparecer a um julgamento em Miami-Dade, mas conseguiu chegar ao Brasil. E existe a afirmação, feita pelo próprio fugitivo, de que autoridades brasileiras o ajudaram.
Se essa segunda parte for comprovada, a história deixa de ser apenas uma fuga espetacular de um réu e passa a envolver uma questão diplomática entre dois países.
Por enquanto, porém, há uma distância considerável entre a acusação e a prova. E é justamente nessa distância que está a parte mais importante — e mais delicada — desta história.
‘Dr. Frankenstein’ says Brazilian officials helped him escape Floridahttps://t.co/aWeK923TUA
— JCeditores ( Junot) – JSNews. (@JCeditores) September 2, 2026


