Fortaleza, 11 de Setembro de 2026 (JUNOT ) –
No Ground Zero, a água cai sem parar para o fundo das duas piscinas quadradas que ocupam a base das Torres Gêmeas. Nos parapeitos de bronze, os nomes estão gravados sem hierarquia de cargo ou passaporte. Entre milhares de letras, estão os de um administrador paulista, uma engenheira que trabalhava no mesmo escritório, uma contadora mineira que organizou uma festa dois dias antes de morrer — e o nome de um engenheiro capixaba cuja morte jamais entrou formalmente na contagem brasileira.
Hoje, 11 de setembro de 2026, faz um quarto de século. Os quatro ataques de 2001 mataram oficialmente 2.977 pessoas. No World Trade Center, foram 2.753. Cerca de 40% dessas vítimas ainda não tiveram restos identificados.
A tragédia foi americana. A lista dos mortos, não.
Em abril de 2002, o Departamento de Saúde de Nova York analisou milhares de atestados de óbito das vítimas. O levantamento já mostrava uma característica essencial da cidade: uma parcela significativa dos mortos havia nascido fora dos Estados Unidos. O 11 de Setembro atingiu uma cidade que, como Nova York, era também uma cidade de imigrantes.
Entre as vítimas havia trabalhadores de dezenas de nacionalidades e origens. Havia executivos e garçons, corretores e faxineiros, engenheiros, contadores, funcionários de restaurantes e trabalhadores de serviços. O Brasil estava entre eles.
105º andar: Ivan e Anne Marie
Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa tinha 30 anos, era paulistano e trabalhava na Cantor Fitzgerald, no 105º andar da Torre Norte. Chegara a Nova York em 1999 e queria ganhar dinheiro para depois voltar ao Brasil.
Um mês e meio antes dos ataques, levou o pai, o médico Ivan Fairbanks Barbosa, para conhecer o World Trade Center. O pai brincou que só deixaria o filho trabalhar ali se tivesse uma asa-delta no escritório. Ivan lhe deu uma miniatura das Torres Gêmeas, que durante anos permaneceu sobre a mesa do consultório em São Paulo.
Na véspera do ataque, telefonou ao pai. Tinha sido promovido e estava preocupado com a responsabilidade do novo cargo.
Na manhã seguinte, às 8h46, o voo 11 da American Airlines atingiu a Torre Norte entre os andares 93 e 99. Ivan estava no 105º andar. Pouco depois, conseguiu falar por rádio com colegas. Tentava descer.
Não houve outra mensagem.
Ao lado dele estava Anne Marie Sallerin Ferreira, 29 anos, também brasileira e funcionária da Cantor Fitzgerald. Os dois eram amigos desde a infância e haviam estudado juntos. Fontes brasileiras da época registraram que os dois trabalhavam no mesmo escritório.
Anne Marie havia se mudado para os Estados Unidos e vivia em Jersey City com o marido, Alexandre Ferreira. A mãe e a irmã Caroline permaneceram em São Paulo. Caroline falou com ela naquela manhã, pouco antes do primeiro impacto.
No Memorial Nacional do 11 de Setembro, os nomes de Ivan e Anne Marie permanecem lado a lado.
98º andar: Sandra

Sete andares abaixo estava Sandra Fajardo Smith, 37 anos, nascida em Belo Horizonte. Coordenadora de contabilidade da Marsh & McLennan, trabalhava no 98º andar da Torre Norte.
Aos 25 anos, havia ido para os Estados Unidos. Trabalhou como garçonete para pagar a faculdade de contabilidade. Construiu a vida em Nova York, casou-se com um americano e obteve o green card. Dois dias antes do ataque, Sandra organizou a festa de aniversário da prima Wanda Fajardo, sete anos mais velha. Wanda não queria ficar. Sandra insistiu.
Depois do 11 de Setembro, a família voltou a contar aquela noite como uma das últimas lembranças felizes que teve dela.
Sandra prometera visitar os pais no Brasil até o fim de setembro.
Não voltou.
108º andar: Nilton
Três andares acima de Ivan e Anne Marie estava Nilton Albuquerque Fernão Cunha, 41 anos, engenheiro capixaba.
Ele trabalhava com importação de componentes eletrônicos e estava em Nova York a negócios. Fora ao World Trade Center para uma reunião. Dias antes, escreveu ao último empregador uma frase que ganhou outro significado depois do ataque:
“Estou cem andares acima do solo, dá para sentir frio.”
Depois dos ataques, Nilton desapareceu.
O Brasil emitiu certidões de óbito para três vítimas. Nilton, embora reconhecido como desaparecido, não entrou na contagem oficial brasileira porque sua família não forneceu material genético para a confirmação. A imprensa brasileira, por isso, frequentemente trata o grupo como quatro brasileiros ligados ao ataque, mas a contagem oficial permanece em três.
O que cabe numa reportagem de 25 anos
Não é apenas uma questão de números.
É a diferença entre estar numa lista, ter um nome gravado em bronze e ter a própria morte reconhecida por um documento oficial. No memorial de Nova York, os nomes não pedem passaporte. Pedem apenas que sejam lembrados.
Ivan, o paulista que queria ganhar dinheiro e voltar para casa.
Anne Marie, a amiga de infância que atravessou o Atlântico e acabou trabalhando ao lado dele.
Sandra, a mineira que fez uma festa para a prima dois dias antes de morrer.
E Nilton, o capixaba que estava em Nova York a negócios e cuja história permaneceu durante 25 anos num território burocrático entre a vida e a morte.
O 11 de Setembro não é apenas uma estatística americana. Para o Brasil, são quatro histórias.
Quatro vidas.
Quatro andares.
Um quarto de século.
Referências:
- Folha de S.Paulo — “É difícil encarar morte sem cadáver para enterrar, diz pai de brasileiro morto no 11 de Setembro”
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/09/e-dificil-encarar-morte-sem-cadaver-para-enterrar-diz-pai-de-brasileiro-morto-no-11-de-setembro.shtml - Folha de S.Paulo — reportagem sobre brasileiros mortos no 11 de Setembro
https://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u29045.shtml - Correio Braziliense — Sandra Fajardo Smith, vítima brasileira do 11 de Setembro
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/especiais/especial-11/09/2011/09/09/interna_especial1109%2C269074/amp.shtml - Folha de S.Paulo — Reportagem sobre o número de brasileiros entre as vítimas
https://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u45068.shtml - O Tempo — “Quatro brasileiros foram mortos durante ataque”
https://www.otempo.com.br/mundo/quatro-brasileiros-foram-mortos-durante-ataque-1.316663 - Prefeitura de Nova York / Office of Chief Medical Examiner — identificação das vítimas do World Trade Center


