BOSTON — A cidade de Boston oferece US$ 575 a participantes de um programa criado para formar lideranças entre imigrantes, inclusive pessoas sem status migratório legal. Mais do que uma iniciativa de integração ou orientação sobre serviços públicos, o Immigrants Lead Boston prepara participantes para organizar suas comunidades, defender pautas diante do poder público e participar ativamente da formulação de políticas locais.
O programa, administrado pelo Mayor’s Office for Immigrant Advancement (MOIA) em parceria com a Massachusetts Immigrant and Refugee Advocacy Coalition (MIRA), está em sua sétima edição. A atual turma começou em 21 de setembro e segue até 5 de dezembro, com atividades de formação e uma cerimônia de conclusão prevista para dezembro.
Segundo a própria prefeitura, os participantes devem se tornar líderes e “embaixadores” de suas comunidades. O treinamento inclui como navegar pelo governo municipal, interagir com autoridades, falar em público, organizar moradores e defender interesses e mudanças que afetem suas comunidades.
A escolha dos termos utilizados pela cidade é significativa. O programa não se limita a ensinar aos imigrantes como acessar serviços municipais ou compreender o funcionamento da administração pública. A formação inclui community organizing e advocacy — atividades destinadas a mobilizar pessoas em torno de determinadas questões e levar suas demandas ao poder público.
É, portanto, uma formação de liderança politicamente mobilizada, ainda que não seja apresentada pela prefeitura como treinamento partidário. Os participantes são preparados para atuar no debate público, organizar suas comunidades e defender determinadas políticas. Isso coloca o programa no campo da participação política e da mobilização cívica, e não apenas da integração administrativa.
O conteúdo das edições anteriores ajuda a identificar o perfil dessa formação. Participantes já foram envolvidos em iniciativas relacionadas a moradia, desenvolvimento equitativo e direitos dos imigrantes, incluindo a defesa de uma legislação que permitiu a emissão de carteiras de motorista para imigrantes sem status migratório. A prefeitura também já descreveu o programa como uma oportunidade para desenvolver habilidades de organização comunitária e produzir mudanças.
A iniciativa foi criada em 2020, durante a administração do então prefeito Marty Walsh, e continuou sob Michelle Wu. A cidade afirma que mais de 100 moradores já passaram pelo programa.
A bolsa de US$ 575 é concedida somente aos participantes que concluem o curso. A prefeitura afirma que o valor não constitui um benefício social, mas uma forma de compensar parte do custo associado ao tempo exigido pelo programa de dez semanas.
O programa não exige cidadania americana. A cidade afirma que os interessados são incentivados a se candidatar independentemente de seu status migratório, desde que sejam moradores de Boston com vínculos com comunidades imigrantes.
A iniciativa provocou críticas de comentaristas conservadores, que questionam o uso de recursos públicos para financiar a formação de lideranças voltadas à defesa de pautas consideradas progressistas. A repercussão aumentou depois que reportagens e publicações em redes sociais passaram a apresentar o programa como uma forma de criar uma nova geração de organizadores comunitários.
A prefeitura rejeita essa interpretação e afirma que o objetivo é ampliar a participação cívica dos moradores e permitir que as comunidades imigrantes tenham maior capacidade de interagir com o governo municipal.
O ponto central da controvérsia, porém, não está em saber se os participantes são cidadãos ou não. A questão é que tipo de liderança a cidade está financiando para formar. Pela própria descrição oficial, trata-se de pessoas preparadas não apenas para conhecer o governo, mas para organizar comunidades, defender interesses e buscar mudanças nas políticas públicas.
Não há indicação, na documentação oficial do programa, de que seu objetivo seja formar integrantes ou candidatos do Partido Democrata. A natureza política da formação, contudo, decorre do próprio conteúdo do treinamento: formar lideranças capazes de mobilizar comunidades e atuar na disputa de ideias e políticas dentro do governo local.


