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East Boston, Estados Unidos – Uma banal discussão por estacionamento em East Boston, bairro de forte presença latina em Boston, escalou para uma detenção federal que durou quatro meses. O colombiano Alejandro Orrego Agudelo, de 27 anos, foi preso pela polícia local por agressão a um agente e resistência à prisão e, ao deixar o tribunal, acabou nas mãos da Imigração e Alfândega (ICE). O caso, revelado pela rádio WBUR, ilustra as tensões entre aplicação da lei estadual e a política migratória endurecida da administração Trump em 2026.
Tudo começou na manhã de 21 de novembro de 2025, por volta das 8h, na Falcon Street. Segundo o relatório da Polícia de Boston, um vizinho moveu a moto de Orrego para liberar uma vaga. Em resposta, o imigrante chutou o para-choque do carro do vizinho, causando dano. Quando os policiais chegaram, Orrego teria empurrado o peito de um oficial e resistido à prisão, o que levou a golpes nas costelas para contê-lo. Ele foi acusado de agressão e agressão a policial, resistência à prisão, destruição de propriedade e perturbação da ordem.
À tarde, no East Boston District Court, Orrego foi liberado. Mas agentes da ICE o aguardavam no tribunal. Ao ser algemado e teria resistido e gritou: “I can’t go back to Colombia” (“Não posso voltar para a Colômbia”), e , segundo o relatório federal ele teria mordido um agente do ICE e tentado imobilizar um outro. Vídeos gravados por ativistas mostram o jovem sem camisa e descalço, sendo imobilizado no chão por agentes e um oficial do tribunal. A cena durou cerca de 30 minutos e viralizou entre grupos de defesa de imigrantes.
Orrego passou os quatro meses seguintes detido na cadeia do condado de Plymouth. A prisão foi amparada pela Laken Riley Act, lei federal que determina detenção obrigatória para imigrantes ilegais acusados de agressão a policiais. Ele quase assinou a remoção voluntária, mas resistiu. “Minha mãe foi morta por um policial na Colômbia quando eu tinha 6 anos. Ao longo da vida, sempre tive más experiências com a polícia”, declarou ele à WBUR, explicando o pânico.
As acusações criminais estaduais foram arquivadas após Orrego enviar carta de desculpas ao vizinho e prometer evitar a vaga. Com o apoio de advogados pro bono do PAIR Project, incluindo a advogada Daniela Hargus, a defesa entrou com habeas corpus na Justiça federal. A petição garantiu audiência de fiança na corte de imigração em Chelmsford. Em março, Orrego foi solto mediante fiança de US$ 7.500, paga por um grupo local. Ele tem audiência marcada para novembro para defender seu pedido de asilo, baseado em perseguição na Colômbia por ser gay.
O ICE não comentou o caso. A Polícia de Boston também não forneceu imagens de bodycam, apesar de pedidos. Orrego, que trabalhava como barista e entrou ilegalmente nos EUA em 2022 em busca de asilo, não tinha condenações prévias relevantes – apenas uma multa por direção sem habilitação que foi arquivada.
O incidente reacendeu o debate sobre a presença da ICE em tribunais de Massachusetts. Ativistas denunciam “armadilhas” e colaboração excessiva de oficiais estaduais com agentes federais. Já defensores da aplicação rigorosa da lei veem o caso como exemplo necessário: entrada ilegal somada a confronto com autoridade justifica prioridade na lista de deportações. No ano passado, a ICE removeu cerca de 10 mil pessoas da Nova Inglaterra sob a pressão da administração Trump.
Para Orrego, o episódio representa trauma acumulado. “Poderia ter lidado de forma diferente, mas entrei em pânico”, disse ele. O caso, agora resolvido na esfera criminal, segue como símbolo da roleta-russa que imigrantes sem status legal enfrentam em interações rotineiras com a polícia americana.


