Havana, 13 de julho de 2026 (JUNOT)
Cinco anos após o maior levante popular contra o regime comunista desde 1959, Cuba não mudou de dono. Mudou de cor: agora é mais preta. Literalmente.
No dia 11 de julho de 2021, milhares de cubanos saíram às ruas gritando “Liberdade” e “Patria y Vida”. Foram espancados, presos e julgados em processos-farsa. Hoje, cinco anos depois, o regime ainda está no poder, os mesmos sobrenomes (ou seus herdeiros) controlam os mesmos botões, e o país vive o que só pode ser descrito como um apagão existencial permanente.
Enquanto o secretário de Estado americano, Marco Rubio — cubano-americano que não precisa de dicionário para entender o que é uma ditadura —, publicava uma nota seca e direta no aniversário, lembrando que o regime respondeu àquelas manifestações com “brutalidade” e que centenas de presos políticos continuam atrás das grades “pelo simples pecado de pedir direitos básicos”, em Cuba a realidade é mais prosaica e mais cruel: as pessoas protestam todos os dias, mas agora em doses homeopáticas. Cacerolazos aqui, bloqueio de rua ali, queima de lixo acolá. Manifestações pequenas, frequentes e sufocadas antes de ganharem corpo.
O regime aprendeu a lição de 2021: não deixar que o descontentamento se aglomere. Prefere mil protestos de 50 pessoas do que um de 50 mil. E funciona. Funciona porque a máquina repressiva nunca foi desmontada. Funciona porque as Forças Armadas e os serviços de inteligência continuam sendo o verdadeiro partido no poder. Funciona porque a elite militar-empresarial (aquela que controla hotéis, importações e o que sobra da economia) tem muito a perder se o sistema ruir.
Enquanto isso, o povo cubano faz o que sempre fez quando o regime aperta o cinto: resiste. Resiste com 1 ou 2 horas de luz por dia em Havana. Resiste com filas de 8 horas para comprar pão que muitas vezes não chega. Resiste vendo os filhos fugirem em balsa ou avião, porque ficar significa escolher entre morrer de fome devagar ou de raiva mais devagar ainda.
O regime, claro, tem sua explicação pronta: o embargo americano. É o álibi perfeito, o mesmo que usa desde 1960. O problema é que, depois de 66 anos, o álibi já está tão gasto quanto as usinas termoelétricas cubanas. Rubio, com a franqueza de quem não precisa fingir neutralidade diplomática, foi direto ao ponto: o sistema é “quebrado”, “não funciona” e “nunca vai mudar enquanto as mesmas pessoas estiverem no comando”.
E é exatamente isso que o regime não está disposto a testar. Prefere o poder no escuro a arriscar a luz da liberdade. Prefere manter 800 ou mais presos políticos (números variam conforme a contabilidade da repressão) do que soltar o país inteiro.
Cinco anos depois de 11 de julho de 2021, a conclusão é desoladora e, ao mesmo tempo, reveladora: o regime cubano não sobrevive apesar do descontentamento popular. Ele sobrevive graças à sua capacidade de administrá-lo, fragmentá-lo e puni-lo com eficiência cirúrgica. O povo protesta, sim. Mas protesta de joelhos, com o estômago vazio e a geladeira desligada.
Enquanto isso, em Washington, o secretário Rubio repete o que muitos em Miami e em Havana já sabem há décadas: o problema não é falta de ajuda americana. O problema é que quem manda em Cuba não quer, nunca quis e provavelmente nunca vai querer que o país funcione para os cubanos.
Cinco anos. Milhares de presos. Milhares de exilados. E o mesmo regime, o mesmo discurso, o mesmo fracasso pintado de “resistência”.
O sarcasmo da história é que, depois de tanto “resistir”, o que sobrou foi um país que mal consegue manter as luzes acesas. E um povo que, mesmo no escuro, continua sabendo perfeitamente quem apagou tudo.


