JSNEWS
A intensificação das operações migratórias do governo Donald Trump em 2025 não produziu apenas a retirada de trabalhadores imigrantes do mercado de trabalho. Também esteve associada à redução de empregos ocupados por americanos nas cidades mais afetadas pela fiscalização, segundo estudo divulgado em setembro pela Brookings Institution, centro de pesquisas econômicas e políticas públicas dos Estados Unidos.
A pesquisa, assinada pela economista Marcela Escobari e pelos pesquisadores Ian Seyal e Paul Beach, analisou 341 regiões metropolitanas e identificou 64 que registraram os maiores aumentos nas detenções realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Nesses locais, o emprego ficou, em média, 0,43% abaixo do nível que seria esperado seis meses depois do início da intensificação das operações.
A diferença continuou aumentando. Onze meses após o início das ações, a defasagem chegou a 0,69% nas cidades para as quais havia dados disponíveis. Os pesquisadores não identificaram sinais de recuperação até dezembro de 2025, último período contemplado pela análise.
Um dos resultados mais expressivos é que a redução do emprego superou em aproximadamente quatro vezes o número de detenções adicionais realizadas nas regiões analisadas. Isso indica que os efeitos econômicos da fiscalização ultrapassaram a retirada direta de trabalhadores do mercado.
Boston entre as cidades afetadas
Boston aparece entre as regiões metropolitanas atingidas pela intensificação das operações migratórias. Segundo Escobari, a cidade registrou aproximadamente 3 mil detenções adicionais em 2025, em comparação com 2024.
Aplicando à região a relação média encontrada na pesquisa, a economista estima que Boston poderia ter registrado cerca de 12 mil empregos adicionais seis meses depois do início da operação Patriot, lançada em maio de 2025.
O número representa uma estimativa contrafactual, isto é, uma comparação com a quantidade de empregos que provavelmente existiria sem a intensificação da fiscalização. Não corresponde a 12 mil demissões individualmente identificadas ou contabilizadas em registros oficiais.
A pesquisadora ressalta que parte significativa das vagas perdidas seria ocupada por trabalhadores americanos. Em sua análise nacional, as evidências disponíveis indicam que aproximadamente metade dos empregos afetados pertenceria a pessoas nascidas nos Estados Unidos.
Efeito ultrapassa os trabalhadores detidos
Os pesquisadores identificaram três mecanismos que ajudam a explicar a repercussão econômica das operações.
O primeiro é o afastamento de trabalhadores que, mesmo sem serem detidos, deixam de comparecer ao emprego por receio de encontrar agentes migratórios no caminho ou durante o expediente.
O segundo envolve a desorganização das empresas. A ausência repentina de funcionários pode comprometer equipes, interromper atividades, reduzir horários de funcionamento e dificultar a contratação de substitutos.
O terceiro é a retração do consumo. O medo de abordagens em locais públicos, estabelecimentos comerciais e vias de circulação também afeta consumidores, reduzindo o movimento em restaurantes, lojas e outros negócios.
Uma pesquisa independente de pesquisadores da Bocconi University e da City University of New York, divulgada em 2026, identificou redução de aproximadamente 1,7 ponto percentual nos gastos com cartões em Estados que registraram os maiores aumentos nas operações migratórias realizadas nas comunidades. O estudo não encontrou efeito semelhante nas transferências de detidos diretamente de estabelecimentos prisionais, indicando que a visibilidade das operações é um fator importante para explicar a retração do consumo.
Em Los Angeles, outra análise identificou queda de 20% a 25% nos gastos de consumidores em bairros com grande concentração de imigrantes após o anúncio de operações migratórias. O resultado reforça a hipótese de que a fiscalização ostensiva pode afetar a atividade comercial muito além das pessoas diretamente abordadas.
Expansão dos acordos com autoridades locais
A pesquisa também chama atenção para a expansão dos acordos 287(g), mecanismo pelo qual o governo federal delega determinadas atribuições de fiscalização migratória a policiais e agentes locais, após treinamento e autorização do ICE.
O modelo de força-tarefa permite que agentes locais, durante atividades policiais de rotina, exerçam determinadas funções migratórias, inclusive em abordagens e patrulhamentos. Segundo os dados apresentados pela Brookings, o número de acordos ativos passou de 135, em janeiro de 2025, para mais de 2.600 em outubro de 2026. Os acordos de força-tarefa responderam por aproximadamente três quartos do crescimento.
Em Massachusetts, a legislação estadual conhecida como PROTECT Act, sancionada pela governadora Maura Healey em agosto de 2026, proibiu novos acordos 287(g) com órgãos estaduais e locais, ressalvadas exceções específicas. A lei também estabeleceu restrições à participação de autoridades locais em atividades federais de fiscalização migratória.
A situação é diferente em New Hampshire, onde condados da região metropolitana de Boston aderiram ao programa. Como o mercado de trabalho não respeita as fronteiras estaduais, operações realizadas em municípios vizinhos podem produzir efeitos sobre empresas e trabalhadores que vivem ou trabalham em Massachusetts.
Debate sobre os efeitos da política migratória
Os resultados da Brookings acrescentam uma dimensão econômica ao debate sobre a política de deportações em massa. A justificativa de que a retirada de trabalhadores sem autorização abriria vagas para cidadãos americanos não considera necessariamente as relações entre mão de obra, produção, consumo e funcionamento das empresas.
Em setores que dependem de equipes numerosas e de trabalhadores com experiência específica, a retirada de funcionários pode reduzir a capacidade operacional das empresas, em vez de criar oportunidades imediatas de contratação.
Os pesquisadores defendem que a política migratória considere também a demanda por trabalhadores da economia americana, a criação de canais legais de imigração e a situação de pessoas que vivem e trabalham no país há anos.
A conclusão econômica do estudo é que operações de fiscalização intensivas e ostensivas podem produzir efeitos que ultrapassam seus alvos diretos, atingindo empresas, consumidores e trabalhadores americanos. A dimensão desses impactos, segundo os pesquisadores, depende não apenas do número de detenções, mas também da forma como as operações são realizadas e de sua repercussão nas comunidades.


