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Um homem de 28 anos, filho adotivo de uma senadora estadual do Maine, permaneceu aproximadamente dois dias sob custódia do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE) enquanto tentava deixar o país para se estabelecer no Canadá. Jessie Tepler-Mujambere foi detido em 28 de outubro, depois de uma abordagem policial por excesso de velocidade em Colebrook, New Hampshire, a aproximadamente 24 quilômetros da fronteira canadense.
Nascido no Burundi, Jessie chegou aos Estados Unidos em 10 de novembro de 2014, pelo aeroporto internacional de Dulles, na Virgínia. Segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS), entrou com autorização de permanência até 5 de maio de 2015 e permaneceu no país após o vencimento do visto.
Sua história familiar ajuda a explicar a situação migratória. Em 2015, quando tinha aproximadamente 16 anos, passou a viver com Denise Tepler, então professora, e seu marido, Sheldon Tepler, advogado. O casal assumiu inicialmente sua guarda legal. A adoção definitiva, entretanto, só foi formalizada quando Jessie tinha cerca de 22 anos, por volta de 2020.
A adoção não lhe garantiu automaticamente a cidadania americana. Pela legislação dos Estados Unidos, a Lei de Cidadania Infantil de 2000 estabelece condições específicas para que filhos estrangeiros adotados adquiram cidadania automaticamente. Entre elas está, em regra, a conclusão da adoção antes dos 16 anos, além da admissão como residente permanente e do cumprimento dos requisitos de guarda legal e física. Como Jessie foi adotado já adulto e não havia obtido residência permanente, não se enquadrou nessas condições.
Ele mantinha um pedido de asilo em tramitação, mas sua autorização de trabalho não foi renovada pelo governo federal em 2026. Diante da indefinição migratória nos Estados Unidos, a família buscou uma alternativa no Canadá, país com o qual Sheldon Tepler também possui vínculo de cidadania.
O procedimento canadense foi concluído em 22 de julho de 2026, quando a cidadania de Jessie foi aprovada. A documentação necessária para comprovar sua condição, porém, só chegou em 28 de outubro, justamente no dia em que iniciou a viagem para Ottawa.
Durante o percurso, um policial o parou por excesso de velocidade em Colebrook. A abordagem resultou em sua entrega ao ICE por meio do programa federal 287(g), que permite a determinados departamentos policiais locais colaborar com as autoridades migratórias.
Jessie passou pelo presídio do condado de Strafford, em Dover, e por uma unidade de processamento migratório em Manchester. Segundo o ICE, ele solicitou, em 28 de outubro, a saída voluntária para o Canadá.
Em 30 de outubro, depois de duas noites sob custódia, foi transportado por agentes migratórios até a passagem fronteiriça de Highgate Springs, em Vermont, onde foi entregue às autoridades canadenses.
Críticas à cooperação com o ICE
Denise Tepler criticou a participação da polícia local na operação e questionou a necessidade de manter o filho detido quando ele já estava deixando voluntariamente os Estados Unidos e possuía cidadania canadense aprovada.
A deputada federal Chellie Pingree, representante do Maine, também questionou a utilização de recursos públicos para uma detenção que terminou com a transferência do jovem ao país para o qual ele já pretendia se mudar.
O episódio evidencia as diferenças entre as políticas estaduais de cooperação com o ICE. O Maine aprovou, em 2026, legislação para restringir acordos entre departamentos policiais locais e autoridades migratórias federais. New Hampshire, onde ocorreu a abordagem, mantém parcerias por meio do programa 287(g).
O caso foi noticiado pelo The Boston Globe e pela emissora WMUR em 30 de outubro. O El País e a rádio pública Maine Public também publicaram reportagens em 2 de novembro.


