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Algumas gestantes americanas estão optando por dar à luz em casa sem médico, parteira ou qualquer profissional de saúde. A prática, chamada de freebirth ou parto livre, ganhou visibilidade nas redes sociais e preocupa obstetras e pediatras.
O caso mais recente é o de Abbey Khopesh, de 30 anos, de Nebraska. Em 16 de agosto, ela teve o segundo filho no chão de casa, sobre cobertores, apenas com o marido. Não fez pré-natal convencional nas duas gestações. Preparou-se com conteúdos sobre “parto soberano” no Instagram, podcasts e material da Free Birth Society. Relatos do casal no TikTok somam dezenas de milhões de visualizações.
Khopesh afirmou depois que acredita na capacidade do corpo feminino, mas não recomenda a prática: “Não é para os fracos”. Médicos alertam que o discurso de autonomia esconde riscos reais — hemorragia, sofrimento fetal, infecção, ruptura uterina e morte.
O que mostram os números
Dados do CDC indicam que, em 2024, cerca de uma em cada quatro mães americanas não iniciou o pré-natal no primeiro trimestre, alta de 13% em relação a 2021. Em alguns estados, mais de 10% tiveram pré-natal tardio ou nenhum. Partos fora do hospital (casa e casas de parto) subiram de 1,37% em 2016 para 2,14% em 2024. O parto completamente sem assistência continua raro — estimado em cerca de 0,25% —, mas a visibilidade cresceu.
A Academia Americana de Pediatria não recomenda parto domiciliar. Especialistas apontam que, sem acompanhamento, caem as chances de detectar síndromes congênitas, sofrimento do recém-nascido e hemorragia.
Redes sociais e expansão global
O crescimento está ligado a páginas e influenciadoras especializadas. A principal organização é a americana Free Birth Society, de Emilee Saldaya e Yolande Norris-Clark. Podcast com milhões de downloads, cursos online que teriam movimentado mais de US$ 13 milhões desde 2018 e formação de “guardiãs de parto” sem titulação médica.
A linha de pensamento se espalhou para Canadá, Reino Unido, Irlanda, Austrália e Noruega. No Reino Unido, 142 partos livres foram registrados em um ano — número considerado subestimado. Na Noruega, os casos saltaram de 20 entre 2020 e 2023 para 21 só em 2024. Investigação do The Guardian associou a Free Birth Society a dezenas de natimortos, mortes neonatais e danos graves em vários países.
O argumento central mistura denúncia de violência obstétrica — intervenções sem consentimento, falta de respeito, medicalização excessiva — com uma conclusão radical: sair do sistema de saúde. Quem critica violência obstétrica, em geral, pede assistência mais humana. O freebirth rejeita pré-natal, hospital e qualquer profissional.
No Brasil
Aqui a prática é residual. Cerca de 99,3% dos partos ocorrem em hospitais. Partos em casa ficam em torno de 0,6% a 0,7% do total e incluem muitos não planejados. O Ministério da Saúde e a Febrasgo desaconselham parto domiciliar. O debate nacional concentra-se em humanizar o parto hospitalar, reduzir cesáreas e ampliar centros de parto normal e o trabalho de enfermeiras obstétricas e doulas — estas últimas regulamentadas em 2026.
O freebirth radical, sem pré-natal e sem assistência, permanece nicho. Cresce onde há desconfiança no sistema, relatos de trauma e circulação intensa de conteúdo nas redes. Não se tornou opção mainstream em nenhum país desenvolvido.


