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A possibilidade de agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE) atuarem nas proximidades de locais de votação tornou-se novamente um tema de disputa política nos Estados Unidos. A controvérsia ganhou força nesta semana depois que Bobby Charles, candidato republicano ao governo do Maine, afirmou que pretende pedir ao czar da fronteira do governo Donald Trump, Tom Homan, o envio de agentes do ICE e de US Marshals para os locais de votação durante as eleições americanas de novembro.
A declaração, registrada em áudio em um encontro com republicanos realizado em 20 de agosto, foi confirmada pela Associated Press. Bobby Charles disse que recorreria a Homan algumas semanas antes da eleição para solicitar a presença dos agentes nas urnas, sob o argumento de impedir votação ilegal, violência e intimidação.
A proposta provocou reação de autoridades eleitorais do Maine e se insere em uma discussão que vem sendo travada em diferentes esferas políticas nos Estados Unidos. Em março, secretários de Estado de vários Estados pressionaram o governo federal por garantias de que o ICE não estaria presente nos locais de votação durante as eleições de 2026.
O debate, portanto, permanece aberto. Não há anúncio de uma operação nacional do ICE destinada aos locais de votação. Ao mesmo tempo, declarações de políticos e ativistas favoráveis à presença de agentes federais mantêm viva a possibilidade de novas disputas políticas e jurídicas sobre os limites da atuação federal nas eleições.
É justamente essa controvérsia americana que ajuda a compreender o temor que começa a cercar uma eleição muito diferente: a eleição presidencial brasileira.
O medo dos brasileiros
A votação nos Estados Unidos não será para eleger autoridades americanas. Os brasileiros que comparecerem às urnas estarão participando da eleição presidencial do Brasil. Como ocorre com os eleitores brasileiros residentes no exterior, a votação será organizada pelas representações diplomáticas e consulares brasileiras em locais previamente definidos.
Segundo a Folha, entretanto, parte dos brasileiros que vivem em Nova Jersey teme que o deslocamento até esses locais de votação possa colocá-los em contato com agentes do ICE. O receio é particularmente relevante entre imigrantes que estão em situação migratória irregular ou aguardam a regularização de sua permanência nos Estados Unidos.
A reportagem descreve uma comunidade que já modificou sua rotina em razão das operações migratórias.
Nesse contexto, uma concentração de milhares de brasileiros em um mesmo endereço para exercer o direito de voto passou a ser vista por parte da comunidade como uma situação potencialmente delicada.
Consulado escolhe local protegido
O temor foi considerado pelo Consulado-Geral do Brasil em Nova York, responsável pelos eleitores de Nova York, Nova Jersey e Filadélfia. Segundo a apuração da Folha, a representação procurou um local que oferecesse maior sensação de segurança e permitisse manter os eleitores dentro do prédio, reduzindo a necessidade de formação de filas em áreas públicas.
O local escolhido é um complexo educacional no Queens, relativamente distante de Manhattan e de cidades de Nova Jersey com grande concentração de brasileiros, como Newark. O espaço também havia sido utilizado pelo Consulado-Geral do Peru para sua votação presidencial.
Em nota, o consulado brasileiro afirmou que suas próprias instalações não comportariam adequadamente o fluxo de aproximadamente 50 mil eleitores da região. A escolha do complexo escolar, segundo a representação, evita filas nas ruas e oferece aos eleitores um espaço confortável e seguro.
A preocupação também envolveu autoridades de Nova York. De acordo com a Folha, a Secretaria de Relações Internacionais da prefeitura e a polícia da cidade participaram do esforço para identificar um local considerado mais seguro para a votação.
Uma possibilidade, não uma certeza
A diferença entre os dois episódios é fundamental.
No Maine, um candidato republicano defendeu explicitamente a presença do ICE nas urnas de uma eleição americana. No caso brasileiro, não existe indicação de que o governo americano tenha determinado que agentes de imigração serão enviados aos locais onde brasileiros votarão.
O temor dos imigrantes, contudo, não surge no vazio. Ele ocorre justamente quando a presença do ICE nas proximidades das urnas é objeto de uma controvérsia nacional nos Estados Unidos, com manifestações de políticos, autoridades eleitorais e organizações civis em sentidos opostos.
Para um brasileiro sem status migratório regular ou com processo de legalização em andamento, a preocupação é ainda mais concreta. O eleitor não precisa estar diante de um agente do ICE para sentir-se intimidado: o simples receio de que uma concentração de estrangeiros possa chamar a atenção da imigração pode ser suficiente para fazê-lo desistir de votar.
É esse o ponto de convergência entre os dois debates. Enquanto nos Estados Unidos se discute se agentes federais devem ou não estar próximos dos locais de votação, entre brasileiros que vivem no país cresce outra pergunta: o medo do ICE poderá impedir um cidadão brasileiro de participar da eleição que decidirá o próximo presidente do Brasil?
Segundo dados citados pela Folha, cerca de 2 milhões de brasileiros vivem atualmente nos Estados Unidos, mas apenas aproximadamente 265 mil estão registrados para votar. O país terá postos eleitorais em diversas cidades americanas, incluindo Nova York, Boston, Miami, Orlando, Chicago, Houston, Los Angeles, San Francisco e Washington.
A eleição brasileira, assim, poderá revelar um efeito inesperado da política migratória americana: não necessariamente a intervenção direta do ICE em uma eleição estrangeira, mas a possibilidade de que o temor de sua presença seja suficiente para afastar eleitores brasileiros das urnas.


