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A vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial brasileira não é apenas uma demonstração de força da direita. Ela oferece uma pergunta incômoda para os Estados Unidos: movimentos políticos construídos em torno de líderes personalistas sobrevivem quando esses líderes deixam de ser candidatos?
Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno com 47% dos votos, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. O resultado ocorreu apesar de Jair Bolsonaro estar preso, condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado e impedido de disputar eleições. O sobrenome, portanto, que para seus adversários deveria representar um passivo, funcionou também como ativo eleitoral.
É aí que a comparação com Donald Trump ganha interesse. Não porque haja evidência de que um dos filhos de Trump disputará a Casa Branca em 2028. Não há. A questão é outra: Trump transformou o Partido Republicano e redefiniu as pautas capazes de mobilizar sua base. Se o trumpismo sobreviver ao próprio Trump, terá feito aquilo que movimentos políticos raramente conseguem: transformar uma personalidade em método.
A eleição brasileira sugere que isso é possível.
O fenômeno tampouco pode ser explicado apenas pela polarização ideológica. Segurança pública, criminalidade, descrença nas instituições e rejeição a uma classe política envelhecida pesaram mais do que muitos analistas gostariam de admitir. A esquerda brasileira continua tratando parte desse eleitorado como se fosse movida exclusivamente por ressentimento ou radicalização. É uma maneira confortável de não responder às perguntas que ele faz.
Lula tentou transformar a eleição em um plebiscito sobre soberania e influência americana. O argumento teve algum efeito, sobretudo quando se opôs às tarifas de Trump. Mas não parece ter respondido à preocupação central de boa parte do eleitorado: segurança e ordem.
Há ainda um dado político mais amplo. A direita elegeu 34 dos 54 senadores disputados. O resultado não é apenas sobre Flávio Bolsonaro. É sobre a capacidade de uma corrente política construir maioria depois de seu líder original ter perdido o poder.
Trump deveria observar. Não necessariamente para copiar Bolsonaro, mas para entender o mecanismo.
Movimentos populistas não desaparecem simplesmente porque seus líderes envelhecem, perdem popularidade ou deixam de disputar eleições. Às vezes, fazem algo mais eficiente: trocam o rosto sem trocar o roteiro.
E é justamente aí que começa o problema para quem acreditava que o pós-Trump seria, automaticamente, o retorno à velha política republicana.


