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No dia 29 de julho de 2026, no Castel Gandolfo, na Itália, o Papa Leão XIV concedeu entrevista ao âncora do NBC Nightly News, Tom Llamas. Questionado sobre a importância de “ser americano” para ele, o primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos respondeu:
“Antes de tudo, só para esclarecer, penso em mim mesmo mais como o Papa que acontece de ser americano. Não para menosprezar o que significa ser americano. Nasci nos Estados Unidos. Minha família ainda está nos Estados Unidos. Tenho grande amor pela América. Mas entendo minha missão como tendo uma dimensão muito importante, que é precisamente ser pastor de uma Igreja universal e ter uma voz e a oportunidade de falar às pessoas em todo o mundo. Portanto, coloco as coisas nessa ordem.”
“E, ao mesmo tempo, reconheço que, para mim mesmo, assim como para o povo dos Estados Unidos, a julgar pela resposta que vimos desde 8 de maio do ano passado, há grande significado em ser o primeiro papa americano.”
Sobre o que mais ama nos Estados Unidos, afirmou: “Tantas coisas. O que a América representa, o sentido de liberdade, o sentido de oportunidade, o sentido de ter convidado, por gerações, pessoas de todo o mundo a fazer parte da América.”
Sobre uma eventual visita ao país, disse: “Eles me verão lá. Por coincidência, hoje estávamos olhando o calendário para os próximos dois anos. Nada está definido ainda, mas certamente espero estar lá em breve.”
A declaração reforça a prioridade da missão universal do papado sobre a origem nacional.
A fala de Leão XIV retoma um princípio clássico do papado: o pontífice é, antes de tudo, pastor da Igreja Católica espalhada pelo mundo. A identidade nacional, por mais real e afetiva que seja, fica em segundo plano. Essa posição dialoga com a tradição cristã de que é “melhor obedecer a Deus do que aos homens” e com o mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo. O próximo, nesse caso, não se limita às fronteiras de um país.
O episódio, no entanto, convida a uma comparação com outro momento da história recente do papado. No final de 1980, durante a crise do sindicato Solidariedade na Polônia, circulou amplamente a notícia de que o Papa João Paulo II teria enviado uma carta ao primeiro ministro da URSS, Leonid Brezhnev. Segundo relatos da época, ele teria declarado que: “caso a União Soviética invadisse a Polônia, abdicaria do papado e retornaria ao seu país para organizar a resistência”. A carta era privada, o texto completo nunca foi divulgado oficialmente e o Vaticano chegou a negar a versão mais dramática. Ainda assim, a história se espalhou pelos jornais, rádios e telejornais de vários países, inclusive no Brasil. E alguma pessoas ainda se lembram disso.
As duas atitudes não se contradizem de forma automática. Leão XIV fala em tempo de paz, sobre a identidade ordinária do cargo. João Paulo II, segundo os relatos, reagiria a uma situação extrema: a ameaça de invasão militar de uma potência estrangeira contra o seu próprio povo. Em um caso, a universalidade é afirmada como princípio. No outro, a solidariedade concreta com um povo sob risco de opressão ganha peso moral especial.
A Igreja Católica possui, ao longo de sua história, uma tradição de proteger os mais fracos e de distinguir entre vítima e agressor. A doutrina da guerra justa, a condenação do terrorismo e a defesa da legítima defesa existem precisamente porque a fé cristã não trata todos os lados como moralmente equivalentes. Não reconhecer diferença entre quem usa a força de forma injusta contra inocentes e quem tenta conter o fanatismo ou defender a ordem pode deixar de ser neutralidade e se aproximar da omissão.
Ao mesmo tempo, o papado carrega a obrigação de não se transformar em instrumento de um Estado. A tensão permanece: como afirmar a universalidade sem apagar a diferença moral entre agressor e vítima? Como amar o próximo de modo concreto concreto — inclusive o do próprio país — sem subordinar a Igreja a interesses nacionais?
Há uma frase antiga que ecoa nesses momentos: para que o mal prevaleça, basta o silêncio dos bons. E a história da salvação, segundo a própria tradição cristã, mostra que Deus às vezes se serve até do injusto ou do homem de escândalo como instrumento para cumprir sua vontade na terra. O papado, por sua natureza, vive exatamente nessa fronteira entre a fidelidade universal e a responsabilidade concreta diante do sofrimento dos inocentes.


