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Goiânia – A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (7) a Operação Travessia, que cumpre 11 mandados de busca e apreensão e sete de prisão preventiva em Goiás e no Amapá para desmantelar cinco organizações criminosas dedicadas à promoção de migração irregular de brasileiros aos Estados Unidos.
Os mandados são cumpridos majoritariamente em Goiânia, onde foram realizadas dez buscas e todas as sete prisões preventivas. No Amapá, foi executada uma busca. Dois investigados foram incluídos na Lista de Difusão Vermelha da Interpol.
Entre os presos está Maria Helena de Sousa Netto Costa, apontada como chefe de um dos grupos, sogra do governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB). Nem o governador nem sua esposa, Iara Netto Vilela, são alvos da investigação.
Esquema transnacional
As investigações, iniciadas com maior intensidade em 2022, identificaram atuação criminosa desde meados dos anos 2000. As cinco organizações, embora autônomas, integravam uma mesma dinâmica transnacional que envolvia toda a logística das viagens ilegais: aquisição de passagens aéreas, uso de documentos falsos ou interpostos, trânsito por países da América Central — especialmente México e Panamá — e a contratação de coiotes para a travessia irregular da fronteira terrestre com os Estados Unidos.
A PF estima que os grupos tenham sido responsáveis pelo ingresso irregular de pelo menos 477 brasileiros, número que pode superar 600. Cada migrante pagava cerca de US$ 20 mil (aproximadamente R$ 111 mil) pelo “pacote” completo. Entre 2018 e 2023, as organizações movimentaram cerca de R$ 240 milhões. O grupo liderado por Maria Helena teria respondido por R$ 45 milhões desse total.
Além de Goiás, a rede contava com ramificações em outras unidades da Federação e no exterior, responsáveis pelo suporte logístico, recepção dos migrantes e intermediação financeira. Empresas de fachada, interposição de pessoas (laranjas) e mecanismos de lavagem de dinheiro eram utilizados para ocultar a origem ilícita dos recursos.
A investigação ganhou impulso após a interceptação, em 2022, de um grupo de migrantes no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Os detidos mencionaram o nome de Maria Helena em depoimentos, o que levou ao aprofundamento das diligências.
A PF classifica os grupos como organizações criminosas estruturadas, com divisão clara de funções, configurando os crimes de promoção de migração ilegal, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
Em nota divulgada após a operação, o governador Daniel Vilela afirmou que nem ele nem a esposa têm qualquer relação com os fatos investigados. “São fatos investigados desde meados dos anos 2000, segundo divulgou a própria Polícia Federal, e não envolvem em nenhum momento o governador ou o governo de Goiás”, diz o texto.
A defesa de Maria Helena de Sousa Netto Costa informou que a prisão causou surpresa e que vai analisar os autos para contestar a medida judicial.
A Operação Travessia reforça a atuação da Polícia Federal contra redes internacionais que exploram a vulnerabilidade de brasileiros em busca de entrada irregular nos Estados Unidos, expondo-os a riscos de exploração, violência e acidentes ao longo da rota migratória.
Defesa de Maria Helena de Souza Netto Costa
“A defesa da Sra. Maria Helena de Souza Netto Costa vem a público esclarecer, com a serenidade que o momento exige, que sua constituinte recebeu com surpresa as medidas cautelares deflagradas em seu desfavor e aguarda o pleno acesso aos autos para análise técnica dos fatos, na forma da Súmula Vinculante nº 14 do STF.
Registra-se, desde já, a absoluta desnecessidade da prisão preventiva decretada, medida de natureza excepcional cujos requisitos legais (art. 312 do CPP) não se fazem presentes na hipótese. Nossa constituinte não apresenta qualquer risco à ordem pública, à conveniência da instrução criminal ou à aplicação da lei penal, tampouco jamais se furtou a qualquer ato investigatório. As providências para o imediato restabelecimento de sua liberdade já se encontram em curso.
A defesa reafirma confiança no Poder Judiciário e lamenta a divulgação seletiva de informações sigilosas. Colocamo-nos a disposição.
Goiânia, 07 de maio de 2026.
Luiz Inácio Medeiros Barbosa
Jorge Augusto dos Reis
Guilherme Alves Machado”
Nota do governador Daniel Vilela
“O caso envolvendo a senhora Maria Helena de Souza Costa não tem absolutamente nenhuma relação com o governador Daniel Vilela e com sua mulher, Iara Netto Vilela. São fatos investigados desde meados dos anos 2000, segundo divulgou a própria Polícia Federal, e não envolvem em nenhum momento o governador ou o governo de Goiás.”


