Por: Alfredo Melo
Apesar de nunca ter sido um craque, Ederson Franco revelou-se um ótimo treinador — mas carregava um estigma: “nasceu pra treinar time pequeno”. Sucesso absoluto nos campeonatos da segunda e terceira divisão da Federação Paulista de Futebol, não conseguia explicar o desinteresse dos clubes da primeira divisão pelo seu trabalho. Já com o nome consolidado no estado de São Paulo, recebeu um convite do Democrata GV, de Minas Gerais, e viu uma boa oportunidade de tentar melhor sorte fora de São Paulo.
Anunciado pelo clube como o “homem capaz de levar o Democrata de volta à primeira divisão do campeonato mineiro”, Ederson chegou a Valadares cercado de “toda pompa e circunstância” — só faltou o carpete vermelho do Oscar.
O clube anunciou que faria uma contratação de impacto, mas pediu que Ederson aproveitasse ao máximo as “joias” da divisão de base. Essa declaração do presidente parece ter sido a senha para a romaria que se iniciou de guras importantes da cidade atrás de Ederson Franco. Estava aberta a temporada de pedidos.
Ao término do primeiro treino comandado por Ederson, à saída do clube estava o delegado da cidade, que o convidou para um cafezinho. Durante o encontro, o “Delega” explicou ao treinador que, apesar de casado, dava assistência a uma jovem senhora separada do marido, e que ela tinha um filho de 19 anos que jogava como lateral esquerdo.
Pediu, então, que o rapaz fosse aproveitado no time titular, prometendo colocar uma viatura policial estacionada 24 horas na porta da casa do treinador. Ederson respondeu que não garantiria nada, mas observaria o rapaz com atenção especial. No dia seguinte, ao chegar para o treino, Ederson foi parado na porta do vestiário pelo gerente da agência central do Banco do Brasil, que disse estar ali para dar as boas-vindas ao treinador. Informou que já havia um cartão de crédito aprovado, bem como um cheque especial de apreciável valor à disposição. Ederson agradeceu e prometeu passar na agência à tarde para assinar os contratos. Ao entrar na agência, encontrou o camisa 10 da divisão de base conversando com o gerente, que o apresentou como filho.
Ederson então ficou sabendo que o menino precisava jogar para ser observado por um empresário interessado em comprar seu passe. Resumindo a “ópera”, o treinador ainda recebeu a visita do padre, do prefeito e do diretor do hospital — todos com pedidos para sobrinhos, filhos, amigos e agregados. Ederson já achava aquilo demais e precisava tomar uma decisão, pois o jogo de estreia estava próximo. Depois de muito pensar, tomou uma decisão surpreendente: no dia do jogo, escalou 12 jogadores e os mandou a campo. Na hora de iniciar a partida, o juiz foi alertado pelos jogadores do Guarani de Divinópolis de que o Democrata tinha 12 em campo. O árbitro contou e confirmou. Sinalizou para o banco do Democrata, mas Ederson fingia que não via nem ouvia.
Cansado, o árbitro foi até Ederson e pediu que tirasse um jogador, pois o time tinha doze.
Ederson respondeu que não iria tirar ninguém.
— Você tem que tirar — insistiu o árbitro — Não tiro — retrucou Ederson. — E tem mais: você deu sorte, porque eu iria entrar com 13. Só não entrei porque o sobrinho do prefeito chegou às 7 da manhã na concentração, bêbado, e está dormindo até agora — Bem, enquanto você não tirar um do seu time, o jogo não começa. Vou aguardar mais quinze minutos. Se não tirar, encerro o jogo e te ferro na súmula. Ederson pensou por cinco minutos, chamou o árbitro e disse — Eu não posso tirar ninguém. Se quiser, escolhe um e tira. Mas atenção: o 6 não pode — foi escalado pelo delegado. O 10 é filho do gerente do Banco do Brasil. O 8 e o 3, nem pensar: um é filho do prefeito e o outro é “protegido” do padre. Se vira, malandro, eu não posso perder esse emprego.
Bem, até que enfim o Alfredo Melo assume a verdade que nunca quis calar: ele é o Gatinho Cruel, que agora sai de cena para dar lugar ao seu criador. Enorme criatura no sentido literal, na bondade, no caráter e no conhecimento profundo do futebol e das coisas boas da vida, inclusive pratos deliciosos. Ah, tem também a paixão pelo Botafogo cada dia maior…


