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WASHINGTON — Donald Trump lançou nesta terça-feira, 29, o America.gov, portal com inteligência artificial que o governo apresenta como a nova “porta de entrada” dos serviços federais. No mesmo palco, o presidente recusou o elogio de que o site seria sua maior obra no cargo — e transformou a recusa em frase de efeito.
“Alguém disse: ‘Senhor, esta vai ser a maior coisa que o senhor fez no governo.’
Eu disse: ‘Não acho.’ Mas está muito bom. É só mais uma coisa”, afirmou. Em seguida, completou: “Se for a maior coisa que eu já fiz, então eu fiz um trabalho de merda como presidente, ok?”
A plateia riu. O palavrão, cada vez mais frequente no segundo mandato, não era autocrítica. Era um jeito de lembrar que, na conta dele, fronteira, economia e política externa pesam mais do que um site.
O que é o America.gov
O evento foi no Auditório Andrew W. Mellon, em Washington, com o vice JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio e outros integrantes do gabinete. O desenho do portal ficou a cargo do National Design Studio; o cofundador do Airbnb, Joe Gebbia, atua no governo como chefe de design. Trump assinou decreto para que as agências integrem seus sites à plataforma.
A proposta é um balcão único. O cidadão escreve a pergunta num chat e recebe resposta extraída de páginas oficiais, com link para a fonte. O governo cita exemplos: passaporte, Medicare, emprego público, empréstimo estudantil, passe de parque nacional, benefícios de veteranos e a conta-poupança infantil criada na gestão Trump.
Por enquanto, o chat já funciona. Tarefas mais complexas — preencher formulários, acompanhar processo e receber documentos em casa — ficam para 2027. Rubio usou o passaporte como vitrine: o que exigia fila, papelada e meses de espera deve caber em poucos passos
“Com o America.gov, o governo federal deixa de ficar no seu caminho. Fica só a seu serviço”, disse Trump. Chamou o projeto de “reinvenção do governo para o século 21”.
A frase e o cálculo político
O presidente disse que “gente séria de tecnologia” vinha elogiando o site há dias. Aceitou o elogio pela metade: o portal é “muito bom”, mas não pode ser o ponto alto do mandato. A lógica é a de sempre. Se um chatbot for a maior marca, o resto — no discurso oficial, a fronteira mais fechada, as deportações, tarifas, acordos e operações no exterior — teria sido pouco.
A linha também serve de defesa antecipada. Críticos já tratam o America.gov como marketing digital e apontam risco de erro da IA, privacidade e substituição de servidores. No lançamento, o governo vendeu agilidade; a oposição tende a vender precariedade.
O anúncio coincidiu com outra agenda do dia: reunião de Trump com executivos de tecnologia sobre o avanço da inteligência artificial. O site entra nessa narrativa — o Estado usando a mesma ferramenta que as big techs.
O que ainda não está pronto
O America.gov nasce incompleto. Responder pergunta é uma coisa; concluir um passaporte ou um cadastro no Medicare sem o labirinto atual é outra. Até 2027, o cidadão ainda vai circular entre agências. O decreto de integração é o mecanismo político para forçar essa unificação.
A frase de Trump, portanto, descreve o evento com precisão involuntária. O governo apresentou um produto e, no mesmo fôlego, disse que o produto não basta para definir o mandato. O site é a notícia do dia. A conquista, no vocabulário do presidente, continua sendo outra.


