JUNOT
A América Latina vive uma virada política clara e, em grande medida, previsível. Depois de uma onda progressista no início da década, com governos de esquerda em países como Brasil, Chile, Colômbia e Peru, a região assiste agora a uma reação conservadora e populista de direita centrada na segurança pública. O motivo principal não é mistério: o fracasso — ou a recusa deliberada — da esquerda em tratar o crime com a seriedade que ele exige.
O texto da Associated Press descreve com precisão esse movimento pendular. Taxas de homicídio caíram em média na região em relação a uma década atrás, mas outros crimes explodiram — especialmente a extorsão — e em países-chave como Colômbia, Peru e Equador os números de assassinatos voltaram a subir. O eleitorado, cansado de viver com medo, migra para candidatos que prometem resultados rápidos e punição dura, inspirados no modelo de Nayib Bukele em El Salvador.
É incontestável que parte significativa do discurso da esquerda latino-americana ainda trata o criminoso como “vítima da sociedade”. Essa visão sociológica, que prioriza “raízes estruturais”, prevenção comunitária e reformas judiciárias de longo prazo, soa nobre em seminários acadêmicos. Na prática, ela se traduz em políticas lenientes, negociações com grupos armados e uma relutância em afirmar o monopólio da força do Estado. O resultado é o que se vê: o crime organizado avança, territórios são perdidos e a população paga o preço.
A Colômbia como exemplo recente
Na Colômbia, o governo de Gustavo Petro apostou na chamada “Paz Total”, com diálogos e concessões a grupos armados. A aposta fracassou. Extorsão disparou, o conflito rural se intensificou e o eleitorado reagiu. No segundo turno de 21 de junho de 2026, o empresário e advogado Abelardo de la Espriella, de linha dura, derrotou por margem mínima o candidato apoiado por Petro. Sua plataforma é clara: fim das negociações, ‘megacárceles’ no estilo Bukele, fumigação aérea de coca e retomada do controle territorial. O eleitor escolheu a promessa de ordem sobre a continuidade da abordagem “sociológica”.
O Peru e o retorno de Keiko Fujimori
No Peru, a candidata Keiko Fujimori chegou ao segundo turno de 7 de junho de 2026 carregando a bandeira da “ordem”. Contra ela, um herdeiro político do ex-presidente preso Pedro Castillo. A disputa apertada reflete o mesmo cansaço: o país registrou aumento de homicídios e extorsão, e o eleitorado parece disposto a dar uma nova chance a um nome associado a políticas de segurança mais rigorosas, apesar do legado controverso de seu pai.
O Brasil no centro do problema
É no Brasil, porém, que o contraste entre o discurso da esquerda e a realidade da criminalidade se mostra mais dramático e persistente. Aqui, facções como o PCC e o Comando Vermelho não são apenas “grupos marginais”: controlam territórios, impõem “impostos”, praticam extorsão em larga escala e expandem influência para além das fronteiras. Mesmo em períodos de queda de homicídios em algumas estatísticas nacionais, a sensação de insegurança permanece alta, especialmente nas grandes cidades e periferias. A população convive com tiroteios, assaltos a bancos, sequestros-relâmpago e a sensação de que o Estado perdeu o controle de partes do território.
Governos de esquerda, especialmente os ligados ao PT, historicamente enfatizaram políticas sociais, redução de desigualdade e abordagem “humanizada” do sistema penal. Programas de transferência de renda são importantes, mas não substituem a afirmação clara de que o crime tem que ter consequências rápidas e severas. Quando o discurso insiste em relativizar a responsabilidade individual do criminoso — “ele é produto da sociedade”, “precisa de oportunidades” —, ele enfraquece o apoio popular a medidas repressivas necessárias. A esquerda brasileira, em sua versão dominante, raramente assume com clareza que há criminosos que são, simplesmente, inimigos da ordem pública e que precisam ser neutralizados com firmeza.
Nesse vácuo surge o Partido Missão, fundado pelo Movimento Brasil Livre, com Renan Santos como pré-candidato à Presidência em 2026. O partido e seu líder defendem uma postura frontal: “guerra ao crime organizado”, aplicação de lógica de “direito penal do inimigo” às facções, megacárceres, retomada de territórios dominados (incluindo propostas de “desfavelização” estrutural) e inspiração explícita em experiências bem-sucedidas de tolerância zero, como a de Bukele.
Renan Santos não hesita em criticar tanto a esquerda tradicional quanto setores da direita que considera lenientes. Em um cenário polarizado, o Missão aparece nas pesquisas com 3% a 6% de intenção de voto — números modestos, mas em crescimento, especialmente entre jovens —, posicionando-se como uma voz que recusa o relativismo sociológico e cobra resultados concretos de segurança.
A análise da Associated Press acerta ao apontar que propostas de longo prazo da esquerda — prevenção, treinamento policial, reformas judiciais — são necessárias, mas demoram a surtir efeito perceptível. O eleitor, aterrorizado por extorsão, facções e sensação de abandono do Estado, opta por quem promete “sentir mais seguro em seis meses”. Ignorar essa demanda, ou reduzi-la a “populismo autoritário”, é recusar-se a encarar a realidade.
A esquerda latino-americana paga caro por sua dificuldade em abandonar o paradigma da “vítima da sociedade”. Enquanto persistir nesse discurso, continuará entregando eleitorado para alternativas que prometem — e, em alguns casos, entregam — ordem. O Brasil, com sua escala continental e a força do crime organizado, é o laboratório mais importante dessa disputa. Ignorar o problema ou relativizá-lo não o faz desaparecer. Pelo contrário: apenas acelera a reação que já se vê na Colômbia, no Peru, no Chile e que começa a se organizar também por aqui no Brasil.


