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Medford, 3 de setembro de 2026 — Setembro é marcado no Brasil pelo Setembro Amarelo, campanha de conscientização e prevenção do suicídio organizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). A iniciativa brasileira se relaciona ao Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro.
Para brasileiros que vivem nos Estados Unidos, a discussão sobre saúde mental ganha contornos próprios. A migração pode representar oportunidade, trabalho e reconstrução de projetos de vida, mas também envolve separação familiar, barreiras linguísticas, dificuldades de integração, insegurança financeira e, para parte dos imigrantes, incertezas relacionadas à situação migratória.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que migrantes submetidos a situações adversas podem apresentar maior vulnerabilidade a problemas como depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. Entre os fatores associados estão isolamento social, separação de familiares, dificuldades econômicas, discriminação, barreiras linguísticas, insegurança jurídica e acesso limitado aos serviços de saúde.
Nos Estados Unidos, os números mais recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram a dimensão do problema. Em 2024, 48.824 pessoas morreram por suicídio no país. No mesmo ano, uma estimativa apontou que 14,3 milhões de adultos tiveram pensamentos sérios sobre suicídio, 4,6 milhões fizeram planos e 2,2 milhões tentaram tirar a própria vida.
A insegurança migratória como fonte de estresse
Para imigrantes que vivem sob insegurança jurídica, o receio de perder o emprego, ser separado da família ou enfrentar uma detenção pode se transformar em uma fonte persistente de estresse.
A literatura científica sobre imigração e saúde mental não permite afirmar que todo imigrante esteja sob maior risco de suicídio. Mas há evidências de que determinadas experiências relacionadas à migração podem agravar o sofrimento psicológico.
Um estudo publicado em 2021 analisou mortes por suicídio entre pessoas mantidas em centros de detenção do Immigration and Customs Enforcement (ICE). Entre 2010 e 2019, a média anual foi de 3,3 suicídios por 100 mil pessoas-ano. Em 2020, a taxa subiu para 17,4 por 100 mil — 5,3 vezes a média da década anterior. Os próprios pesquisadores ressaltaram que os resultados deveriam ser interpretados com cautela.
Outra pesquisa encontrou uma associação particularmente preocupante entre a detenção ou deportação de um familiar e a saúde mental de adolescentes latinos. Entre 547 jovens acompanhados pelo estudo, aqueles que tiveram um familiar detido ou deportado apresentaram probabilidade significativamente maior de relatar ideação suicida no acompanhamento posterior.
Os estudos não permitem transformar esses resultados em uma estatística específica para brasileiros. Eles, contudo, ajudam a compreender como a instabilidade migratória pode afetar não apenas quem está diretamente envolvido em um processo de imigração, mas também seus familiares.
O peso do isolamento
A experiência migratória também pode produzir uma forma particular de solidão.
A distância da família, a dificuldade de estabelecer novas amizades, a barreira do idioma e a sensação de não pertencer inteiramente à sociedade de destino podem reduzir as redes de apoio justamente quando elas são mais necessárias.
A OMS destaca que a participação comunitária e a existência de redes sociais de apoio estão entre os fatores que podem proteger a saúde mental dos migrantes. Por outro lado, dificuldades de moradia, emprego, renda, acesso a serviços, discriminação e isolamento podem ampliar a vulnerabilidade.
Para brasileiros, manter vínculos culturais pode funcionar como uma dessas redes. Igrejas, associações comunitárias, grupos de amigos, eventos culturais e espaços de convivência em português podem oferecer não apenas identidade cultural, mas também oportunidades de pertencimento.
A pressão pelo sucesso
Existe ainda uma dimensão menos visível da experiência migratória: a obrigação de dar certo.
Para muitos brasileiros, a migração está associada a expectativas econômicas concretas — melhorar a vida da família, comprar uma casa, enviar dinheiro ao Brasil ou retornar um dia com patrimônio suficiente para justificar os anos de sacrifício.
Quando essas expectativas não se concretizam, sentimentos de fracasso podem se somar ao cansaço provocado por jornadas extensas, dificuldades financeiras, conflitos familiares ou insegurança profissional.
O problema pode ser particularmente delicado entre homens. Os dados nacionais americanos mostram que a taxa de suicídio entre homens permanece muito superior à registrada entre mulheres. Em 2022, por exemplo, a taxa foi de 23,0 mortes por 100 mil homens, contra 5,9 por 100 mil mulheres.
Mais do que atribuir o fenômeno a uma única causa, especialistas em saúde mental costumam considerar uma combinação de fatores individuais, sociais e ambientais. A dificuldade de falar sobre sofrimento e de procurar ajuda pode fazer com que problemas se acumulem antes de receberem atenção.
Quando o imigrante retorna ao Brasil
A migração também pode produzir dificuldades depois da volta.
O retorno não significa necessariamente recuperar imediatamente a vida que ficou para trás. Relações familiares podem ter mudado, antigos vínculos profissionais podem ter desaparecido e a própria identidade pode ter sido transformada pelos anos vividos no exterior.
O psiquiatra espanhol Joséba Achotegui desenvolveu o conceito de “Síndrome de Ulisses” para descrever situações de estresse extremo associadas à experiência migratória, especialmente quando diferentes fontes de adversidade se acumulam.
O conceito, entretanto, não deve ser tratado como diagnóstico médico ou como explicação automática para problemas psicológicos de todo migrante que retorna ao país.
Pesquisas recentes sobre retorno migratório apontam que dificuldades econômicas, exclusão social, perda de redes de apoio e obstáculos de acesso à saúde podem aumentar a vulnerabilidade psicológica de pessoas que retornam, especialmente quando o retorno ocorre de maneira involuntária.
Reconhecer os sinais
O Setembro Amarelo não significa presumir que todo momento de tristeza seja uma crise suicida. Significa, sobretudo, criar condições para que o sofrimento possa ser percebido e discutido antes que se agrave.
Mudanças importantes de comportamento, isolamento repentino, desesperança, alterações significativas no sono ou no humor e aumento do consumo de álcool ou outras substâncias podem merecer atenção.
Em vez de julgamento, familiares e amigos podem oferecer escuta e estimular a busca por ajuda profissional.
Também é importante não transformar estatísticas ou fatores de risco em diagnósticos individuais. Uma pessoa submetida a dificuldades migratórias pode atravessar períodos de grande sofrimento sem desenvolver um transtorno mental; da mesma forma, alguém aparentemente bem adaptado pode estar enfrentando uma crise silenciosa.
Onde buscar ajuda
Nos Estados Unidos, o 988 Suicide & Crisis Lifeline oferece atendimento gratuito e permanente por telefone e mensagens de texto. O serviço dispõe de tradução telefônica para mais de 240 idiomas. Em Massachusetts, o Estado também mantém materiais de divulgação do 988 em português.
No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, todos os dias da semana, além de oferecer atendimento por outros canais.
Em uma emergência imediata nos Estados Unidos, a orientação é procurar atendimento de emergência ou ligar para o 911.
O objetivo do Setembro Amarelo, portanto, não é transformar a experiência migratória em uma história de sofrimento. É reconhecer que a construção de uma nova vida pode trazer desafios que nem sempre são visíveis — e que pedir ajuda não significa fracassar.
Para quem vive longe do país de origem, preservar vínculos, construir redes de apoio e reconhecer os próprios limites podem ser tão importantes quanto trabalhar, prosperar e cumprir os projetos que levaram à decisão de emigrar.
Falar sobre saúde mental não elimina as dificuldades da imigração. Mas pode impedir que alguém precise enfrentá-las sozinho.


