Washington · 2 de setembro de 2026 — A United States Mint, a Casa da Moeda dos Estados Unidos, colocou à venda nesta quarta-feira, 2 de setembro, uma moeda de US$ 1 com a efígie do presidente Donald Trump. A peça integra as comemorações dos 250 anos da independência americana e faz de Trump o primeiro presidente em exercício a figurar em moeda oficial do país desde Calvin Coolidge, em 1926 — intervalo de exatamente um século.
O anverso traz o retrato oficial de Trump na Casa Branca, gravado pelo gravador-chefe Joseph Menna a partir de fotografia de Daniel Torok. Ao redor aparecem as legendas “LIBERTY”, “IN GOD WE TRUST” e a data dupla “1776 ~ 2026”. No reverso está o Selo Presidencial, com o número “250” no escudo da águia. A cunhagem foi feita em Filadélfia, sem marca de casa da moeda e com bordo liso.
Como comprar
A venda é exclusiva pelo catálogo da U.S. Mint. Há duas apresentações:
- rolo de 25 moedas por US$ 61,00 (cerca de US$ 2,44 por peça);
- saco de 100 moedas por US$ 154,50 (cerca de US$ 1,55 por peça).
Há limite inicial de duas unidades de cada produto por residência até as 14h de quinta-feira, horário do leste americano. A Casa da Moeda fixou teto de 150 mil rolos e 50 mil sacos. Se o estoque se esgotar nessas apresentações, o volume chega a 8,75 milhões de peças.
Para o comprador no Brasil, há um obstáculo prático: a Mint não inclui o País na lista de destinos de envio internacional. Quem quiser a peça no canal oficial precisa de endereço nos Estados Unidos — familiar, amigo ou serviço de redirecionamento — e deve considerar frete, impostos de importação e o prazo da Receita Federal.
O que atrai o colecionador
O interesse numismático não está só no retrato. A Mint inseriu, de forma aleatória, 250 mil moedas cunhadas em 4 de julho com marca privada (“privy mark”) “JULY 4th”. Elas não são vendidas à parte. Quem compra o rolo ou o saco pode ou não receber um exemplar marcado. Essa variedade já circulou entre especialistas antes do lançamento oficial e tende a ser o principal diferencial de preço no mercado secundário.
A peça tem valor facial de um dólar e pode, em tese, ser usada em pagamentos. Na prática, o canal de venda é o de colecionador, com ágio sobre o valor de face. Dealers americanos e plataformas como o eBay devem absorver o excedente nas próximas semanas, em geral a preço maior — sobretudo os exemplares com a marca de 4 de julho.
O Tesouro já sinalizou outras peças com a imagem do presidente, entre elas uma nota de US$ 250 e uma moeda comemorativa de ouro 24 quilates. Estas ainda não têm data de venda definida.
O precedente de 1926
O último presidente vivo a aparecer em moeda americana havia sido Calvin Coolidge. Em 1926, na meia-dólar de prata do Sesquicentenário — os 150 anos da independência —, o então ocupante da Casa Branca figurou ao lado de George Washington. A emissão era comemorativa, não de circulação cotidiana. Parte substancial das peças acabou devolvida e fundida, o que hoje reforça o caráter de raridade relativa daquele precedente.
De 1926 a 2026 passam-se cem anos. George Washington, no século XVIII, recusou ter o próprio rosto em moeda em vida, por considerar o gesto monárquico e incompatível com a ruptura com a Coroa britânica. Essa recusa virou tradição cívica, ainda que tenha sido quebrada em emissões comemorativas pontuais.
Houve outras pessoas vivas em moedas comemorativas depois de Coolidge — governadores e senadores nos anos 1920 e 1930, e Eunice Kennedy Shriver no dólar de prata das Olimpíadas Especiais, em 1995. Nenhuma delas, porém, era presidente da República em exercício. É esse recorte que torna a peça de 2026 excepcional no calendário oficial.
A controvérsia jurídica
A emissão reabriu um debate antigo. A Emenda Thayer, de 1866, estabeleceu, em regra, que só o retrato de pessoa falecida deve figurar em moeda e títulos dos Estados Unidos. A norma nasceu de um episódio de vaidade administrativa: um funcionário do Tesouro, Spencer Clark, fez estampar o próprio rosto em cédula de cinco centavos. O Congresso reagiu.
A Lei das Moedas Presidenciais de US$ 1, de 2005, reforçou a restrição no programa que homenageia ex-presidentes: não se admite imagem de presidente vivo nem de morto há menos de dois anos.
O governo Trump apoia-se na Circulating Collectible Coin Redesign Act, de 2020 — sancionada pelo próprio Trump no fim do primeiro mandato. A lei autoriza, só em 2026, moedas de US$ 1 com desenhos “emblemáticos” do semiquincentenário. O texto veda retrato de pessoa viva no reverso. Como o rosto de Trump está no anverso, o Tesouro considera a peça regular. O secretário Scott Bessent citou o precedente de Coolidge.
Democratas no Congresso, juristas e parte da comunidade numismática contestam a leitura. Argumentam que o espírito das normas é impedir o uso do dinheiro como veículo de promoção pessoal e que a tradição republicana rejeita o culto à imagem do governante em exercício. Houve projeto para barrar presidente vivo em qualquer moeda e ação judicial pedindo interrupção da cunhagem. Um juiz federal negou liminar por falta de dano concreto ao autor, sem decidir o mérito da legalidade.
O Citizens Coinage Advisory Committee, órgão que costuma examinar designs, recusou-se a referendar o retrato. A Comissão de Belas-Artes, cujos membros atuais foram nomeados pelo presidente, aprovou o desenho.
A peça já está no mercado. O valor histórico, o ágio de colecionador e a pendência jurídica devem caminhar juntos: a moeda entra para o inventário numismático americano ao mesmo tempo em que reabre a pergunta que Washington formulou no século XVIII — se a efígie de um presidente vivo cabe, ou não, no dinheiro de uma república.


