Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores!
Hoje gostaria de convidá-los para uma conversa um pouco diferente, daquelas que talvez nos deixem desconfortáveis por alguns instantes, mas que, se acolhidas com sinceridade, podem abrir caminhos importantes dentro de nós.
Trago uma reflexão séria sobre a coragem de reconhecer a si mesmo e a responsabilidade de transformar a própria história.
Ao longo da minha trajetória profissional, tenho observado algo que merece nossa atenção: muitas pessoas procuram ajuda porque desejam mudar. Querem controlar melhor suas emoções, melhorar seus relacionamentos, abandonar comportamentos prejudiciais, superar conflitos e encontrar uma maneira mais saudável de viver.
Esse movimento de buscar ajuda é importante e, muitas vezes, exige coragem. Entretanto, existe uma questão que nem sempre recebe a atenção necessária: até que ponto estamos realmente dispostos a participar da mudança que desejamos?
Parece uma pergunta simples, mas não é.
Muitas vezes, reconhecemos nossos comportamentos inadequados. Sabemos que somos impacientes, que reagimos agressivamente, que temos dificuldade em ouvir, que insistimos em controlar situações ou que responsabilizamos os outros por nossas frustrações. Em determinados momentos, chegamos a reconhecer que nossas atitudes machucam pessoas que amamos.
Ainda assim, repetimos os mesmos comportamentos.
E, quando alguém nos confronta, encontramos explicações que já se tornaram familiares: “Eu sou assim mesmo”, “Não consigo mudar”, “Sempre fui desse jeito”, “Não consigo mudar minhas atitudes” ou “Quem me ama já aprendeu a me aceitar como sou”.
Mas será que essas afirmações representam sempre uma impossibilidade real? Ou, em algumas situações, tornaram-se uma maneira de evitar o desconforto necessário ao crescimento?
Na psicologia, compreendemos que os comportamentos humanos não surgem por acaso. Muitos foram aprendidos ao longo da vida, desenvolvidos como mecanismos de proteção diante de experiências difíceis. Algumas reações que hoje prejudicam nossos relacionamentos podem ter sido, em outros momentos, tentativas de sobreviver emocionalmente.
Por isso, não devemos olhar para nossas dificuldades com desprezo ou condenação.
Entretanto, compreender a origem de um comportamento não significa justificar sua permanência indefinidamente.
Nossa história pode explicar muitas de nossas atitudes, mas não precisa determinar todas as nossas escolhas futuras.
O psicólogo Carl Rogers, um dos principais representantes da psicologia humanista, defendia que a transformação pessoal está profundamente relacionada à capacidade de a pessoa entrar em contato com sua experiência de maneira autêntica e acolhedora.
Sua conhecida reflexão sobre o paradoxo da mudança pode ser compreendida assim: é quando conseguimos nos aceitar verdadeiramente que começamos a encontrar condições para mudar.
Observe que existe uma diferença importante entre aceitar quem somos e acomodar-nos àquilo que nos prejudica.
Aceitar-se não significa considerar saudável tudo o que fazemos. Significa reconhecer nossas qualidades, limitações, fragilidades e contradições sem precisar escondê-las atrás de justificativas.
É possível reconhecer: “Tenho dificuldade em controlar minha raiva e em ouvir o outro”, sem concluir: “Portanto, não consigo evitar minhas explosões”.
É possível dizer: “Minha infância foi difícil”, sem transformar essa experiência em autorização para ferir outras pessoas.
É possível admitir: “Tenho medo de mudar”, sem permitir que esse medo conduza todas as decisões da nossa vida.
A mudança começa quando deixamos de utilizar nossas dificuldades apenas como explicações e passamos a reconhecê-las também como responsabilidades que precisam ser trabalhadas.
Na prática clínica, sabemos que a transformação raramente acontece de maneira imediata. Ela exige consciência, motivação, perseverança e disposição para experimentar respostas diferentes daquelas que se tornaram automáticas.
E aqui encontramos outro aspecto importante: o conhecido conforto daquilo que nos é familiar.
Nem sempre permanecemos em determinados comportamentos porque eles nos fazem bem. Às vezes, permanecemos porque já sabemos como viver com eles.
“O que estou pedindo que os outros aceitem e suportem em mim que eu mesmo já reconheci que preciso mudar?”
E, quem sabe, ao respondermos com sinceridade, descobriremos que a transformação que tanto esperamos do mundo precisa começar, silenciosamente, dentro de nós.
“Tudo Posso N’Aquele que me fortalece.”
Filipenses 4:13
Até a próxima semana!
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


