JUNOT
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, em 25 de outubro, repercutiu entre partidos e lideranças da esquerda europeia. Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez apresentou o resultado como sinal de uma possível recuperação eleitoral do progressismo. A ex-prefeita de Barcelona Ada Colau, candidata da coalizão Frente Ampla, incorporou o gesto do “L” de Lula a um ato de campanha. A estratégia de mobilização digital do deputado André Janones também passou a ser citada como referência para movimentos políticos no exterior.
A influência, porém, tem limites. As manifestações por moradia, educação e custo de vida realizadas em países europeus respondem a demandas locais. Não há evidências apresentadas pelas reportagens consultadas de que a estrutura digital da campanha brasileira esteja coordenando esses protestos.
A experiência brasileira
Durante o segundo turno, Janones, deputado federal, utilizou o canal de WhatsApp “Exército do Lula” para distribuir vídeos, textos e orientações de compartilhamento. A iniciativa ultrapassou 10 milhões de seguidores e promoveu ações destinadas a ampliar a circulação de conteúdos em plataformas como Instagram e X.
O canal organizava as chamadas “missões”, pelas quais participantes eram estimulados a compartilhar publicações e mobilizar outros apoiadores. A estratégia transformou uma audiência numerosa em uma rede de distribuição de mensagens políticas.
A dimensão e a repercussão da iniciativa foram registradas pela imprensa brasileira. A experiência, contudo, não permite concluir, por si só, que o modelo tenha sido reproduzido integralmente por organizações estrangeiras.
A Espanha usa Lula como referência
Pedro Sánchez comemorou a vitória brasileira em uma publicação nas redes sociais: “O que aconteceu no Brasil acontecerá na Espanha. A virada do progressismo global acaba de começar”.
A declaração foi feita a pouco mais de um mês das eleições gerais espanholas, previstas para 29 de novembro. O resultado brasileiro passou a integrar o discurso de setores da esquerda que procuram demonstrar a possibilidade de derrotar eleitoralmente a direita, mesmo diante de cenários inicialmente desfavoráveis.
Ada Colau também recorreu ao exemplo brasileiro. Em um ato da Frente Ampla em Madri, pediu que os participantes levantassem os braços e formassem a letra “L” com os dedos. Nas redes sociais, a candidata associou a eleição brasileira à expectativa de uma vitória progressista na Espanha.
A repercussão foi registrada pelo jornal espanhol El País, que apontou a utilização do resultado brasileiro como instrumento de mobilização eleitoral. A comparação, entretanto, é política: as condições eleitorais, os partidos e os desafios institucionais dos dois países são diferentes.
Estratégias digitais além das fronteiras
A imprensa brasileira também relatou o interesse de setores da esquerda internacional pela estratégia de Janones. A CNN Brasil apontou Jean-Luc Mélenchon, dirigente da esquerda francesa, entre os políticos que demonstraram interesse em iniciativas inspiradas no “Exército do Lula”.
A reprodução de ferramentas de mobilização digital não significa, necessariamente, a transferência integral do modelo brasileiro. O alcance de uma rede de mensagens depende da organização partidária, do comportamento dos eleitores e das características de cada sistema político.
Influência eleitoral não é coordenação de protestos
A vitória de Lula também recebeu manifestações de dirigentes europeus. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que “a democracia e o multilateralismo venceram no Brasil”. O presidente francês Emmanuel Macron destacou a parceria entre os dois países.
Essas declarações demonstram a repercussão diplomática do resultado, mas não comprovam a adoção de uma estratégia eleitoral comum entre governos europeus.
A distinção é importante para compreender o alcance da influência brasileira. O gesto do “L”, as declarações de Sánchez e Colau e o interesse pela mobilização digital de Janones indicam que a campanha brasileira se tornou uma referência para setores da esquerda europeia. Não demonstram, porém, que essa influência tenha se estendido à organização dos protestos por habitação e custo de vida, cujas pautas e dinâmicas permanecem vinculadas às circunstâncias de cada país.


