JUNOT
Uma estudante identificada como Isabela Casahuga-Lemgruber, filha de mãe brasileira e pai espanhol, tornou-se alvo de intensa repercussão nas redes sociais depois de recitar um poema que ridiculariza o assassinato do ativista conservador americano Charlie Kirk. A apresentação ocorreu durante um evento da Turning Point USA na Universidade do Texas em San Antonio (UTSA), instituição na qual a jovem estuda.
O episódio ganhou notoriedade depois que o ativista Christian Collins divulgou o vídeo da apresentação. Diante do microfone, Isabela recitou uma composição inspirada em uma tradicional poesia natalina americana, substituindo as referências festivas por alusões ao assassinato de Kirk, morto com um tiro no pescoço em 10 de setembro de 2025, durante um encontro universitário em Utah.
Ao terminar, a estudante dirigiu-se a Collins e comentou que ele era corajoso por participar do evento sem proteção no pescoço, justamente a região atingida pelo disparo que matou Kirk.
Não se tratava de uma crítica às ideias do ativista, de uma contestação de suas posições políticas ou de uma manifestação contra a organização conservadora. O elemento central da apresentação era a própria morte de um homem, transformada em motivo de ironia e entretenimento.
At @UTSA for Pick Up the Mic, a student read a poem celebrating the assassination of Charlie Kirk with such glee, then told me I was brave to be out here without my neck covered.
I told her I’d pray for her.
This is the climate. We pick up the mic anyway. https://t.co/ZfipQsosaF
— Christian Collins (@CollinsforTX) October 27, 2026
A estudante invocou a liberdade de expressão para justificar sua apresentação. Entretanto, a questão levantada pelo episódio não se esgota na garantia constitucional de poder manifestar opiniões, mesmo aquelas consideradas ofensivas ou de mau gosto. Existe uma dimensão anterior e mais profunda: a responsabilidade moral de reconhecer a dignidade da vida humana, inclusive quando pertence a alguém de quem discordamos.
Charlie Kirk era um ativista conservador que defendia posições controversas sobre religião, política, educação e costumes. Suas ideias estavam sujeitas à crítica, ao contraditório e à rejeição pública. Era perfeitamente legítimo contestá-lo, confrontá-lo intelectualmente e demonstrar suas eventuais contradições mas não justifica mata-lo a tiros por dizer que dizia.
O que não se pode confundir é a rejeição de suas ideias com a satisfação diante de seu assassinato.
A diferença não é pequena. É a distância entre uma sociedade que resolve suas divergências pelo debate e outra em que a eliminação de um adversário passa a ser tratada como motivo de celebração. O primeiro comportamento pertence à tradição civilizatória; o segundo revela uma preocupante deterioração dos valores que permitem a convivência entre pessoas com convicções diferentes.
Não é necessário concordar com Charlie Kirk para reconhecer a gravidade de sua morte. Tampouco é preciso compartilhar suas convicções para compreender que ninguém deveria perder a vida por defender opiniões políticas. A dignidade humana não pode depender da afinidade ideológica.
O episódio também expõe uma contradição cultural. A capacidade de produzir uma paródia, recorrer a referências literárias ou dominar recursos de linguagem não representa, por si só, formação intelectual. Cultura pressupõe também discernimento, consciência histórica, responsabilidade e capacidade de reconhecer limites. A inteligência que não se acompanha de sensibilidade moral pode se transformar apenas em instrumento de humilhação.
Celebrar a morte de alguém por suas convicções não demonstra superioridade intelectual nem coragem política. Demonstra, no mínimo, uma preocupante incapacidade de separar a divergência legítima do desprezo pela vida.
Isso não autoriza atribuir à estudante intenção criminosa ou presumir que ela seria capaz de praticar violência. Mas tampouco obriga a sociedade a tratar sua manifestação como uma simples provocação estudantil, destituída de significado moral.
Universidade abre procedimento disciplinar
A Universidade do Texas em San Antonio informou que considera o episódio grave e que as manifestações da estudante não representam os valores defendidos pela instituição. A direção comunicou que examina as circunstâncias por meio dos procedimentos disciplinares previstos em suas normas, respeitando a legislação de privacidade estudantil.
A direção do Sistema da Universidade do Texas também afirmou que não tolerará incitação à violência ou ameaças de incitação à violência por integrantes de sua comunidade.
Collins, que inicialmente interpretou a referência ao pescoço como uma possível ameaça indireta, posteriormente afirmou que não pretendia simplesmente condenar a estudante e que rezaria por ela.
A repercussão, entretanto, produziu outro problema. Informações pessoais atribuídas à jovem e a familiares começaram a circular na internet, acompanhadas de ataques e cobranças por sua expulsão. A exposição de familiares e a perseguição pessoal não se justificam pela gravidade de uma manifestação pública. Criticar uma conduta não significa autorizar o linchamento digital de quem a praticou.
Até o momento, a universidade não anunciou uma decisão disciplinar definitiva. Também não existe confirmação oficial de que Isabela tenha sido expulsa ou esteja sujeita a um procedimento de deportação.
O caso deixa uma reflexão que ultrapassa as fronteiras de uma universidade americana e as divisões entre direita e esquerda. Uma sociedade não demonstra maturidade cultural apenas pela quantidade de opiniões que permite expressar, mas também pela capacidade de preservar princípios que tornam possível a convivência entre seus integrantes.
A liberdade de expressão protege até mesmo manifestações moralmente condenáveis. Mas nenhuma sociedade verdadeiramente civilizada deveria confundir o direito de celebrar um assassinato com uma demonstração de inteligência, cultura ou superioridade moral. Afinal, quando a morte de alguém se transforma em motivo de festa apenas porque essa pessoa pensava diferente, o que está em questão já não é somente a liberdade de expressão. É a própria humanidade de quem celebra.
(JUNOT)
A inspiração do poema de e Isabela Casahuga-Lemgruber
Leia o poema de Isabela
Original, em inglês:
“It was the night before the Kirkiversary
and all through the house
not a creature was stirring
not even a mouse //
The flags were hung proudly
the memes all on deck
as we solemnly remembered
a shot to the neck //
The podcast fell silent
the hot takes grew weary
for tomorrow dear friends
is the great Kirkiversary.”
Tradução para o português:
“Era a véspera do Kirkiversário
e, por toda a casa,
nenhuma criatura se agitava,
nem mesmo um rato. //
As bandeiras estavam hasteadas com orgulho,
os memes, todos a postos,
enquanto nos lembrávamos solenemente
de um tiro no pescoço. //
O podcast ficou em silêncio,
as opiniões provocativas se cansaram,
pois amanhã, queridos amigos,
é o grande Kirkiversário.”


