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Sete brasileiros disputam as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro. Todos concorrem pelo Partido Democrata a vagas nos Legislativos estaduais de Massachusetts, Flórida, Connecticut e Nevada. Quatro já ocupam cadeiras parlamentares e tentam renovar seus mandatos. Os outros três buscam ingressar na política estadual pela primeira vez.
Os candidatos são Priscila Sousa, Danillo Sena, Rita Mendes e Lorena Betts, em Massachusetts; Felipe Sousa-Lazaballet, na Flórida; Farley Santos, em Connecticut; e Elaine Marzola, em Nevada.
Entre os que já exercem mandatos, Priscila Sousa, Danillo Sena e Rita Mendes representam Massachusetts, enquanto Farley Santos ocupa uma cadeira em Connecticut e Elaine Marzola integra a Assembleia Legislativa de Nevada. Lorena Betts e Felipe Sousa-Lazaballet disputam suas primeiras eleições para os respectivos Legislativos estaduais.
A presença brasileira ocorre em um momento de crescente importância eleitoral das comunidades latino-americanas nos Estados Unidos. O voto hispânico tornou-se um dos segmentos acompanhados com maior atenção pelos partidos, especialmente em estados e distritos onde a diferença entre democratas e republicanos é pequena.
Pesquisa do Pew Research Center divulgada em outubro de 2026 mostra que 51% dos eleitores hispânicos registrados declararam preferência por candidatos democratas à Câmara dos Representantes, contra 24% que preferiam republicanos. O levantamento também identificou uma avaliação mais favorável do Partido Democrata entre os entrevistados.
Historicamente, os democratas construíram uma relação política mais próxima de organizações comunitárias latinas, sindicatos, movimentos de defesa dos imigrantes e entidades que atuam em questões de educação, saúde e direitos civis. Essa relação, entretanto, não significa que o eleitorado latino seja politicamente uniforme.
A eleição presidencial de 2024 demonstrou que Donald Trump ampliou seu desempenho entre eleitores hispânicos, especialmente entre homens e setores preocupados com economia, segurança e imigração. O avanço republicano mostrou que o apoio latino não constitui um patrimônio eleitoral exclusivo dos democratas.
A comunidade brasileira apresenta uma particularidade adicional. Embora os brasileiros sejam latino-americanos pela origem geográfica, não são automaticamente classificados como hispânicos nas estatísticas americanas, que utilizam critérios relacionados à origem espanhola. Além disso, parcelas expressivas da comunidade brasileira identificam-se com pautas conservadoras, especialmente em setores empresariais, religiosos e ligados ao conservadorismo social.
Não existe, contudo, uma pesquisa nacional representativa que permita afirmar que a maioria dos brasileiros residentes nos Estados Unidos seja republicana. A comunidade é politicamente diversificada, e a filiação democrata dos sete candidatos não representa necessariamente a preferência partidária de seus compatriotas.
MASSACHUSETTS CONCENTRA QUATRO CANDIDATOS
Priscila Sousa: trajetória eleitoral inclui tentativa de disputar a prefeitura

Nascida em Ipatinga, Minas Gerais, Priscila Sousa mudou-se para os Estados Unidos aos 7 anos e cresceu em Framingham, cidade que abriga uma das maiores comunidades brasileiras de Massachusetts. Obteve o diploma em Ciência Política, Relações Internacionais e Inglês pela Simmons University, em 2009.
Sua trajetória política começou na esfera municipal. Antes de chegar à Assembleia Legislativa, integrou o Conselho Escolar de Framingham e tornou-se a primeira mulher negra a presidir o órgão.
Em 2017, disputou a prefeitura de Framingham, mas terminou a primeira etapa da eleição em quarto lugar. Cinco anos depois, concorreu à Câmara dos Representantes de Massachusetts e foi eleita pelo 6º Distrito de Middlesex, assumindo o mandato em janeiro de 2023.
Agora, busca seu segundo mandato consecutivo na Assembleia. Na eleição geral de 2026, não enfrenta adversário formalmente inscrito, situação conhecida nos Estados Unidos como eleição sem oposição.
Entre suas iniciativas legislativas está o projeto H.1994, apresentado em parceria com os deputados Manny Cruz e Carlos González, para proteger inquilinos contra retaliações e ameaças de denúncia de sua situação migratória. Outra proposta, H.2176, busca impedir que empregadores utilizem a ameaça de exposição do status imigratório de trabalhadores para ocultar violações de leis trabalhistas, salariais e tributárias.
As duas iniciativas têm relevância direta para comunidades imigrantes, particularmente trabalhadores que podem temer denunciar abusos por causa de sua situação documental.
Priscila também integra comissões legislativas relacionadas a educação, saúde pública e legislação eleitoral. Sua atuação política inclui a defesa de investimentos nas escolas públicas e de políticas voltadas a famílias de baixa renda.
Danillo Sena: primeiro brasileiro-americano eleito para o Legislativo estadual

Conhecido politicamente como Dan Sena, Danillo Sena chegou aos Estados Unidos aos 14 anos, acompanhado da mãe, e estabeleceu-se em Acton, Massachusetts.
Sua experiência como imigrante influenciou o início de sua participação política. Ainda jovem, envolveu-se na mobilização nacional dos chamados Dreamers, jovens que chegaram aos Estados Unidos durante a infância e reivindicavam proteção contra a deportação e oportunidades de regularização.
Durante os estudos, participou de atividades em Washington e prestou depoimentos no Legislativo de Massachusetts em defesa da ampliação do acesso à educação superior pública.
Formado em Ciência Política pela Universidade de Massachusetts Amherst, trabalhou durante seis anos no gabinete do senador estadual Jamie Eldridge, antes de disputar uma cadeira parlamentar.
Foi eleito em 2020 pelo 37º Distrito de Middlesex e tornou-se o primeiro brasileiro-americano eleito para uma Assembleia Legislativa estadual nos Estados Unidos. Desde então, construiu sua atuação em torno de educação, desenvolvimento comunitário, sustentabilidade e direitos dos imigrantes.
Sena participa da Comissão de Ação Climática e Sustentabilidade e integra a bancada legislativa negra e latina de Massachusetts, além do grupo parlamentar de origem portuguesa.
Também defende investimentos na educação pública e medidas para facilitar a integração de imigrantes à sociedade americana. Sua experiência como Dreamer é uma das referências de sua atuação política.
Em 2026, disputa a reeleição. Antes de conquistar a cadeira estadual, havia participado de uma primária democrata competitiva em 2020, na qual derrotou Dina M. Samfield.
Rita Mendes: da política municipal à Assembleia estadual

Nascida em Conselheiro Pena, Minas Gerais, Rita Mendes mudou-se para os Estados Unidos com os pais em 2002. A família estabeleceu-se em Brockton, Massachusetts, onde ela iniciou sua trajetória profissional e comunitária.
Chegou ao país sem falar inglês e posteriormente formou-se em Direito. Trabalha como advogada e também atua no mercado imobiliário.
Sua entrada na política ocorreu no âmbito municipal. Em 2019, foi eleita para o Conselho Municipal de Brockton, experiência que antecedeu sua candidatura à Assembleia Legislativa.
Em 2022, conquistou uma cadeira pelo 11º Distrito de Plymouth, tornando-se uma das brasileiras a ocupar um mandato estadual em Massachusetts. Foi reeleita em 2024 e agora busca seu terceiro mandato.
Na eleição de 2026, venceu novamente a disputa interna democrata e não enfrenta candidato republicano registrado para a vaga.
Rita integra comissões legislativas relacionadas a orçamento, legislação eleitoral, Justiça e equidade racial. Sua atuação inclui temas como acesso aos serviços públicos, qualificação profissional, oportunidades econômicas e atendimento a famílias de baixa renda.
Sua experiência como advogada e sua trajetória de imigração também aparecem entre os elementos de sua atuação comunitária, especialmente nas questões relacionadas à inclusão e ao acesso a serviços públicos.
Lorena Betts: primeira candidatura ao Legislativo estadual

Lorena Betts é uma das três brasileiras que tentam conquistar pela primeira vez uma cadeira em um Legislativo estadual americano.
Brasileira, mudou-se para os Estados Unidos em 2011. Sua trajetória inclui trabalho comunitário, mobilização cívica e atuação em organizações voltadas à participação popular.
Antes de lançar sua candidatura, trabalhou como assessora legislativa de Dan Sena, experiência que lhe permitiu acompanhar o funcionamento da Assembleia de Massachusetts e as demandas apresentadas por moradores do estado.
Também participou da fundação da Peacemakers Network, organização ligada à mobilização comunitária. Em sua campanha, destaca a participação em manifestações conhecidas como No Kings, realizadas em oposição a medidas e posições do governo Donald Trump.
Lorena concorre pelo 16º Distrito de Middlesex, que abrange áreas de Lowell e Chelmsford. Venceu a primária democrata de setembro e enfrenta a republicana Karla Miller na eleição geral.
Entre suas principais propostas estão a ampliação da oferta de moradias acessíveis, a redução do custo de vida, o acesso à saúde e a aproximação entre representantes eleitos e comunidades locais.
Diferentemente dos três brasileiros que já ocupam cadeiras em Massachusetts, Lorena ainda não exerceu mandato na Assembleia estadual. Sua candidatura representa a passagem da atuação comunitária para a disputa direta por representação política.
FLÓRIDA: FELIPE SOUSA-LAZABALLET E A EXPERIÊNCIA DOS DREAMERS

Natural de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Felipe Sousa-Lazaballet chegou aos Estados Unidos aos 14 anos. Filho de uma empregada doméstica cearense, viveu aproximadamente 15 anos em situação migratória irregular.
A experiência pessoal o aproximou dos movimentos de defesa dos direitos dos imigrantes. Em 2010, participou da Trail of Dreams, uma marcha de aproximadamente 1.500 quilômetros até Washington, organizada por jovens imigrantes que reivindicavam mudanças na legislação migratória.
Aos 26 anos, obteve autorização de trabalho por meio do DACA, programa criado durante o governo Barack Obama para oferecer proteção temporária contra deportação a determinados jovens que chegaram ao país ainda crianças.
Posteriormente, conseguiu residência permanente por meio de uma petição familiar e naturalizou-se cidadão americano em 2021.
Felipe também trabalhou durante cinco anos na administração do prefeito de Orlando, Buddy Dyer, e participou de iniciativas de assistência a comunidades vulneráveis, incluindo ações relacionadas às vítimas do massacre da boate Pulse.
Atualmente, dirige o Hope CommUnity Center, organização que trabalha com imigrantes e famílias de baixa renda.
Em 2026, disputa pelo Partido Democrata uma cadeira na Câmara dos Representantes da Flórida, pelo 42º Distrito, na região metropolitana de Orlando. Sua adversária é a republicana Bonnie Jackson.
Entre suas principais propostas estão a ampliação da oferta de moradias acessíveis, investimentos em escolas públicas, melhorias no transporte coletivo e acesso à saúde.
Na questão migratória, defende uma reforma que amplie os caminhos para a regularização, preserve o devido processo legal e reduza práticas de detenção que considera desumanas.
Sua candidatura tem o apoio de organizações ligadas à defesa dos imigrantes, direitos civis e trabalhadores. Se eleito, poderá se tornar o primeiro ex-beneficiário do DACA a ocupar uma cadeira em um Legislativo estadual americano.
Felipe não possui mandato eletivo anterior identificado. Sua entrada na disputa representa a tentativa de transformar anos de ativismo comunitário em representação parlamentar.
CONNECTICUT: FARLEY SANTOS BUSCA O TERCEIRO MANDATO

Farley Santos chegou aos Estados Unidos aos 7 anos e cresceu em Danbury, Connecticut. Estudou em escolas públicas da cidade e construiu sua carreira profissional no setor bancário, onde trabalhou por quase 16 anos em funções relacionadas ao desenvolvimento comunitário.
Sua trajetória política começou em 2019, quando foi eleito para o Conselho Municipal de Danbury, representando o quarto distrito. Também integrou o Conselho de Educação e participou de organizações sem fins lucrativos.
Em 2022, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Connecticut pelo 109º Distrito, derrotando o republicano Jesy Fernandez. Dois anos depois, foi reeleito ao vencer Brenda Santopolo Hefferon.
Em 2026, disputa seu terceiro pleito para o Legislativo estadual, buscando renovar o mandato.
Uma das marcas de sua atuação foi a destinação de mais de US$ 151 milhões para Danbury durante seu primeiro mandato, segundo sua biografia oficial. Os recursos foram direcionados a escolas públicas e organizações comunitárias, além de projetos como o monumento estadual em homenagem aos veteranos das guerras do Afeganistão e do Iraque.
Santos também ocupou a posição de líder assistente da maioria na Assembleia e exerceu a vice-presidência da Comissão Bancária.
Sua atuação concentra-se em desenvolvimento econômico, educação, serviços comunitários e apoio a organizações locais. Antes de chegar ao Legislativo estadual, já havia construído uma rede de participação comunitária em Danbury, cidade com expressiva população imigrante.
NEVADA: ELAINE MARZOLA OCUPA CARGO DE LIDERANÇA

Nascida no Rio de Janeiro, Elaine Marzola mudou-se com a família para Las Vegas em 1984.
Advogada, formou-se em Estudos da Mulher pela Universidade de Nevada, em Las Vegas, e obteve posteriormente o diploma de Direito. Construiu carreira profissional no estado antes de ingressar na política.
Foi eleita para a Assembleia Legislativa de Nevada em novembro de 2020, pelo 21º Distrito, na região de Las Vegas. Depois de duas reeleições, em 2022 e 2024, disputa agora seu quarto pleito consecutivo.
Sua trajetória parlamentar a levou a ocupar posições de destaque. Elaine preside a Comissão de Comércio e Trabalho e exerce a vice-presidência da Comissão Judiciária, além de participar de debates sobre recursos naturais e segurança pública.
Atualmente, ocupa a presidência pro tempore da Assembleia, função de liderança que a coloca entre as principais autoridades parlamentares do estado.
Sua atuação legislativa está relacionada a questões trabalhistas, atividade empresarial, Justiça e políticas públicas. Como advogada, também mantém participação em organizações profissionais e instituições ligadas à comunidade jurídica de Nevada.
A trajetória de Elaine é a mais longa entre os sete brasileiros identificados na disputa de 2026 em termos de mandatos consecutivos no Legislativo estadual.
REPRESENTAÇÃO BRASILEIRA EM UM CENÁRIO POLÍTICO DIVIDIDO
Os sete candidatos representam diferentes gerações de brasileiros que construíram suas vidas nos Estados Unidos e passaram a disputar espaços nas instituições políticas americanas.
Quatro deles — Priscila Sousa, Danillo Sena, Rita Mendes e Elaine Marzola — já acumulam experiência parlamentar. Farley Santos também possui dois mandatos estaduais e tenta o terceiro. Lorena Betts e Felipe Sousa-Lazaballet, por sua vez, buscam transformar a experiência comunitária em representação legislativa.
O grupo tem em comum a filiação democrata e a presença em comunidades com participação significativa de imigrantes. Mas suas candidaturas não devem ser interpretadas como expressão de uma preferência política uniforme entre os brasileiros.
O crescimento da participação latina nas eleições americanas representa uma oportunidade para os dois grandes partidos. Os democratas mantêm vínculos históricos com organizações de defesa dos imigrantes, mas os republicanos também ampliaram sua presença entre eleitores hispânicos, sobretudo em segmentos preocupados com economia, segurança e valores conservadores.
Para os brasileiros, o fenômeno tem uma dimensão adicional: a comunidade começa a deixar de ser apenas objeto das políticas migratórias e passa a participar, por meio de cidadãos naturalizados e seus descendentes, da formulação das decisões que afetam suas cidades e estados.
As eleições de 3 de novembro poderão ampliar essa presença em quatro Legislativos estaduais. Nenhum dos sete concorre ao Congresso federal, mas os cargos em disputa têm influência direta sobre educação, habitação, segurança, impostos, saúde e políticas de integração dos imigrantes.


