JUNOT
O caso de Lindsay Clancy, de 36 anos, acusada de matar os três filhos em Massachusetts, voltou ao centro do debate judicial americano após uma audiência realizada nesta segunda-feira (2), no Tribunal Superior de Plymouth. Além da disputa sobre a possibilidade de um segundo julgamento, o processo levanta uma questão controversa: até que ponto a condição de mulher e mãe pode influenciar a maneira como jurados avaliam crimes cometidos contra crianças?
Clancy é acusada de matar Cora, de 5 anos, Dawson, de 3, e Callan, de apenas oito meses, em 24 de janeiro de 2023, na residência da família, em Duxbury. Segundo a acusação, ela estrangulou os três filhos com faixas de exercício e, em seguida, tentou tirar a própria vida, saltando de uma janela do segundo andar. A tentativa deixou sequelas permanentes, incluindo paralisia.
O julgamento começou em 27 de julho de 2026, depois de um processo de seleção que reuniu 18 jurados: 12 mulheres e seis homens. Para a fase de deliberação, foram sorteados 12 integrantes, nove mulheres e três homens.
A defesa sustentou que Lindsay sofria de psicose pós-parto e não tinha condições de compreender a natureza e a gravidade de seus atos. A promotoria, por sua vez, argumentou que, apesar dos problemas psiquiátricos, ela compreendia que estava cometendo atos errados e agiu deliberadamente.
Em 4 de setembro, depois de aproximadamente seis semanas de julgamento e sete dias de deliberações, o juiz William Sullivan declarou o processo encerrado sem veredicto, após o júri informar que não conseguia chegar a uma decisão unânime. A divisão era de 11 a 1, com 11 jurados inclinados a considerá-la não responsável criminalmente em razão de doença mental e apenas um contrário a essa interpretação.
O peso das expectativas sobre a maternidade
Durante as deliberações, o Boston Globe publicou uma análise sobre a possível influência dos estereótipos de gênero no julgamento. A psicóloga Jessica Salerno, professora da Universidade Cornell e pesquisadora de decisões de júris, observou que a condição de mulher e mãe poderia atuar em direções opostas.
Segundo a especialista, alguns jurados poderiam julgar Lindsay com maior severidade justamente porque uma mãe que mata os próprios filhos viola a expectativa social de proteção e cuidado materno. Em sentido contrário, essa mesma expectativa poderia favorecer a defesa: diante da dificuldade de imaginar uma mãe cometendo atos dessa natureza, alguns jurados poderiam considerar mais plausível que ela estivesse gravemente doente.
A pesquisadora também apontou que a manifestação de emoções em tribunal pode influenciar a percepção dos jurados. Uma mulher que não demonstra o sofrimento esperado pode ser vista com desconfiança; quando demonstra emoção, porém, sua reação também pode ser interpretada como artificial por quem já desconfia dela.
A composição do júri e o resultado da votação, entretanto, não comprovam que houve favorecimento em razão do gênero. Não há informações que permitam identificar como cada integrante votou nem estabelecer que as mulheres tenham sido mais tolerantes do que os homens.
Disputa sobre um segundo julgamento
A discussão voltou ao tribunal em 2 de novembro porque a defesa tenta impedir que Lindsay seja julgada novamente. Os advogados argumentam que o juiz deveria ter investigado melhor a conduta do único jurado divergente antes de declarar o impasse. Sustentam que a decisão violou a proteção constitucional contra a dupla persecução penal, conhecida nos Estados Unidos como double jeopardy.
A promotoria defende que o encerramento do primeiro julgamento foi correto e informou que pretende levar o caso novamente a julgamento, embora ainda não tenha definido se manterá as acusações de homicídio em primeiro grau ou buscará acusações menos graves.
O juiz Sullivan não decidiu sobre o pedido de arquivamento na audiência de segunda-feira. Uma nova sessão foi marcada para 16 de novembro, quando também poderá ser discutido o calendário de um eventual segundo julgamento. Março de 2027 foi mencionado como possibilidade.
Lindsay permanece sob custódia em uma instituição psiquiátrica estadual. Se for considerada não responsável criminalmente por motivo de doença mental, poderá continuar internada sob supervisão judicial. Se condenada por homicídio em primeiro grau, poderá receber prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
O caso expõe uma questão que ultrapassa a disputa entre acusação e defesa: como separar a avaliação objetiva das provas das expectativas sociais sobre maternidade, comportamento feminino e doença mental em julgamentos de grande impacto emocional.


