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BRASÍLIA — A restrição imposta pelo ministro Dias Toffoli à campanha digital de Renan Santos (Missão) já deixou o terreno jurídico e entrou no cálculo eleitoral. No campo do candidato, a leitura é de uma “facada institucional”: um golpe desferido no meio da disputa que, em vez de retirar Renan do jogo, pode empurrá-lo para o centro do noticiário e reforçar a posição que tenta ocupar fora da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Há, na política, decisões que produzem efeitos para além de sua finalidade imediata. A de Toffoli pode ser uma delas.
Para uma candidatura com pouco tempo de televisão, estrutura partidária ainda em formação e forte dependência das redes sociais, a restrição atinge um instrumento central da campanha. Ao mesmo tempo, cria uma narrativa que dificilmente seria produzida por uma campanha convencional: a de um candidato pequeno confrontado diretamente pelo poder de uma instituição que, para seu eleitorado potencial, já carrega elevado grau de desconfiança.
É uma situação paradoxal. Quanto mais severa a medida, maior o dano operacional à campanha — e maior também a possibilidade de transformar o próprio dano em capital político.
O ponto decisivo passa a ser outro: se a Justiça Eleitoral está aplicando uma regra ou produzindo, na prática, uma exceção.
Toffoli suspendeu a propaganda na internet em perfis informados fora do prazo, bloqueou o Fundo Eleitoral da chapa e retirou Renan de debates em rádio, televisão e podcasts. O registro da candidatura permanece de pé, embora o ministro tenha pedido esclarecimentos e deixado aberta uma possibilidade politicamente muito mais grave: a de que Renan sequer chegue às urnas.
É nesse ponto que a questão deixa de ser apenas jurídica.
Levantamento com dados do TSE divulgado nesta terça-feira mostra 2.744 candidatos sem qualquer rede social declarada à Justiça Eleitoral até segunda-feira. A irregularidade atravessa partidos e posições políticas. Parte desses candidatos continua, entretanto, utilizando publicamente as redes para fazer campanha.
Entre os casos identificados estão André Fufuca (PP), candidato ao Senado pelo Maranhão; Helio Lopes (PL), ao Senado por Roraima; Chico Rubens Paiva (PSB), candidato à Câmara pelo Rio de Janeiro; e José Carlos Eymael (DC), candidato a deputado federal por São Paulo.
Alguns afirmam ter informado os perfis ou atribuem a ausência a problemas no procedimento. Outros não responderam aos contatos da imprensa. A defesa de Renan sustenta que seu caso decorreu de falha técnica. Toffoli atribuiu à omissão uma gravidade maior, levantando inclusive a hipótese de utilização deliberada da falha para escapar às regras eleitorais.
É aqui que a tese de seletividade começa a ganhar força política.
Se o mesmo critério for aplicado aos demais casos, a decisão contra Renan poderá ser vista como parte de uma fiscalização mais ampla. Se a severidade da resposta ficar concentrada sobre a chapa presidencial do Missão, a discussão inevitavelmente será outra.
Não mais sobre a existência da regra, mas sobre quem, afinal, está submetido a ela.
E essa é uma discussão muito mais perigosa para uma instituição eleitoral do que a simples regularidade de um cadastro.
A exposição que a punição produz
Há uma ironia na política digital que o episódio deixa particularmente evidente: retirar um candidato das redes pode reduzir sua campanha e aumentar sua exposição.
Renan depende das plataformas digitais de maneira muito mais intensa do que candidaturas apoiadas por grandes estruturas partidárias. Instagram, YouTube e outras redes são, para o Missão, praticamente uma extensão da própria máquina eleitoral.
A perda é concreta.
Mas o efeito político também é.
Ao transformar Renan em alvo de uma decisão de grande repercussão, Toffoli involuntariamente oferece à campanha aquilo que ela dificilmente obteria apenas com propaganda: um antagonista institucional e uma narrativa simples de compreender.
A campanha já vinha explorando o confronto com Toffoli. A decisão fornece agora um acontecimento capaz de dar corpo a essa narrativa.
É o mecanismo clássico de formação de um candidato de protesto: quanto maior a distância entre a candidatura e as estruturas tradicionais de poder, maior a utilidade política de apresentar-se como alvo delas.
Mas existe um limite.
A punição pode consolidar os que já estavam com Renan sem necessariamente convencer quem ainda não estava.
E é justamente aí que entram as pesquisas.
O tamanho real do salto
Antes da decisão, Renan já havia deixado de ser um nome irrelevante. Mas ainda estava longe de ameaçar os dois polos da disputa.
O Atlas/Bloomberg de 31 de agosto registrou 7,6% para Renan. Lula aparecia com 43,4% e Flávio Bolsonaro com 33,7%.
O Real Time Big Data, com entrevistas realizadas entre 27 e 31 de agosto, encontrou Renan entre 6% e 7%, conforme a presença ou ausência de Pablo Marçal no cenário.
São números suficientes para colocá-lo no radar. Não para colocá-lo no comando de uma terceira força.
O problema mais sério está em outro indicador: rejeição.
No Atlas/Bloomberg, 67% disseram que não votariam em Renan. Apenas 16% tinham avaliação positiva de sua candidatura.
Isso estabelece um limite importante para a euforia provocada pela decisão.
A exposição pode fazer um candidato crescer. Também pode simplesmente tornar mais conhecido aquilo que o eleitor já decidiu rejeitar.
O objetivo mais plausível, portanto, não é reproduzir 2018. É aproveitar a crise para disputar com Augusto Cury o espaço de principal candidatura situada fora da polarização e tentar romper a faixa de 4% a 8% em que Renan vem oscilando.
É uma ambição mais modesta. E, justamente por isso, mais realista.
O cálculo do Missão
A campanha tem agora três tarefas simultâneas: cumprir a decisão para não fornecer novos argumentos à Justiça; recorrer com rapidez; e transformar os 2.744 casos de candidatos sem redes sociais declaradas em uma questão política nacional.
A terceira é a mais importante.
A campanha não precisa convencer o eleitor de que regra eleitoral não deve existir. Precisa convencê-lo de que uma regra aplicada de maneira desigual deixa de ser apenas regra e passa a ser poder.
É aí que a “facada institucional” deixa de ser apenas slogan.
Sem os debates, Renan perde uma das poucas oportunidades de confrontar diretamente Lula e Flávio Bolsonaro. Sem o Fundo Eleitoral e com as restrições às redes, perde capacidade de escala.
O paradoxo está posto.
A mesma decisão que pode impedir Renan de crescer pela via tradicional pode lhe oferecer uma das maiores oportunidades de exposição de sua campanha.
Se o plenário do TSE reduzir ou derrubar a cautelar, o Missão poderá transformar o recuo em vitória política e tentar converter o episódio em votos. Se a restrição permanecer até outubro, a “facada institucional” poderá consolidar a militância, mas corre o risco de permanecer restrita àqueles que já estavam convencidos.
No fim, a questão não será saber se Renan foi beneficiado ou prejudicado pela decisão.
Será saber qual dos dois efeitos prevalecerá: o da máquina eleitoral que perdeu força ou o da narrativa política que ganhou força.
Por enquanto, Toffoli conseguiu produzir uma situação que nenhuma campanha desenharia sozinha: tirou instrumentos de campanha de Renan e, simultaneamente, colocou Renan no centro da campanha.
A urna dirá qual dos dois efeitos terá sido maior.


