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Lima, junho de 2026 — Com mais de 99% das atas apuradas, a candidata conservadora Keiko Fujimori lidera o segundo turno presidencial peruano por cerca de 40 mil votos (50,11% a 49,89%). O candidato de esquerda, Roberto Sánchez, já anunciou que pedirá a anulação dos votos do exterior — onde Fujimori obteve ampla vantagem — alegando irregularidades na cadeia de custódia e mudança de procedimento (de digital para malotes físicos).
O padrão é conhecido. Em 2021, foi Fujimori quem contestou veementemente a vitória apertada de Pedro Castillo, pedindo anulação de centenas de milhares de votos rurais. Agora, os papéis se invertem. Não há, até o momento, provas robustas de fraude em escala suficiente para alterar o resultado. Mas o ciclo se repete: em eleições decididas por margens mínimas, o perdedor questiona a legitimidade do processo.
O Peru vive há mais de uma década uma instabilidade crônica. Desde 2016, o país já teve oito presidentes. O Congresso usa com frequência o mecanismo de “incapacidade moral” para afastar chefes de Estado. Instituições como o ONPE (escritório eleitoral) e o JNE (tribunal eleitoral) são alvo constante de ataques quando os resultados não agradam.
Essa fragilidade não é apenas institucional — é cultural e política. Elites e partidos tratam a democracia como um jogo de soma zero: ou se vence de qualquer jeito, ou se contesta o resultado. Observadores internacionais (OEA, União Europeia) repetidamente atestam a transparência dos processos, mas isso pouco importa quando a narrativa de “fraude” já foi plantada.
O caso colombiano: o mesmo script
Na Colômbia, o padrão também se repete. Em 2022, Gustavo Petro venceu a eleição presidencial após uma campanha marcada por acusações mútuas. A oposição questionou aspectos do processo, mas foi Petro quem, em eleições mais recentes (2026), voltou a levantar suspeitas de irregularidades no escrutínio, especialmente em relação a software e registro de eleitores. Observadores da União Europeia consideraram a votação “transparente e ordenada”, rejeitando as alegações de fraude em massa. Ainda assim, o discurso de desconfiança persiste.
Na Colômbia, como no Peru, as instituições eleitorais conseguem resistir melhor que no passado, mas o tecido democrático está tensionado por polarização extrema e pela facilidade com que atores políticos questionam o resultado quando perdem.
O Brasil de 2022: o caso mais grave da região recente
No Brasil, as eleições de 2022 seguiram roteiro semelhante, mas com consequências mais graves. O então presidente Jair Bolsonaro e seus aliados passaram meses questionando a integridade das urnas eletrônicas, sem apresentar provas concretas. Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva por margem estreita, parte do bolsonarismo recusou-se a aceitar o resultado. O ápice veio em 8 de janeiro de 2023, com a invasão e depredação dos Três Poderes em Brasília — um episódio que se assemelhou ao 6 de janeiro americano.
Diferente do Peru e da Colômbia, o Brasil tem instituições eleitorais historicamente mais robustas (TSE e STF atuaram com firmeza). Mesmo assim, o ataque à legitimidade do processo eleitoral expôs uma fragilidade preocupante: a capacidade de setores significativos da sociedade e de elites políticas de colocar em dúvida o próprio sistema quando o resultado não lhes favorece.
O que une Peru, Colômbia e Brasil (e outros países da região) não é necessariamente a existência de fraudes generalizadas — a maioria dos processos é considerada limpa por observadores independentes. O problema mais profundo é a erosão das normas democráticas.
Instituições eleitorais são atacadas quando não entregam o resultado desejado. A confiança pública nas urnas e nos tribunais cai. A polarização transforma qualquer eleição apertada em crise existencial. Elites políticas, em vez de aceitar a derrota e trabalhar dentro das regras, optam por questionar as regras.
Essa dinâmica enfraquece o que a ciência política chama de “forbearance” (tolerância mútua) e “mutual toleration” — a disposição de aceitar que o outro lado possa governar legitimamente. Sem isso, a democracia vira um regime de fachada, onde as instituições funcionam formalmente, mas perdem legitimidade substantiva.
A América Latina não enfrenta, na maioria dos casos, golpes clássicos ou fraudes massivas comprovadas. Enfrenta algo mais sutil e perigoso: uma cultura de contestação permanente dos resultados eleitorais por parte dos perdedores.
Enquanto esse padrão persistir — com atores de diferentes espectros ideológicos usando a mesma tática —, as instituições democráticas da região continuarão frágeis. A democracia não morre apenas quando é destruída por fora. Ela também definha quando seus próprios protagonistas não aceitam perder dentro das regras do jogo.
O Peru de 2026 é apenas mais um capítulo desse livro já conhecido. O risco real não está em uma fraude específica, mas na normalização da ideia de que o resultado só é legítimo quando favorece o meu lado. Essa é a verdadeira ameaça à democracia latino-americana.


