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MONRÓVIA, Libéria — A brasileira Paola Ferreira dos Santos, de 21 anos, estava entre os 15 imigrantes enviados pelos Estados Unidos à Libéria em 20 de agosto. Segundo relato dado à CBS News, ela só descobriu qual seria seu destino quando o avião pousou em Monróvia, capital liberiana.
“Eu fui a primeira a sair do avião”, contou Paola ao correspondente de imigração da CBS, Camilo Montoya-Galvez, em entrevista realizada em português. Segundo seu relato, foi nesse momento que ouviu dos responsáveis pela recepção: “Bem-vinda à Libéria. Você está na África”.
Paola é a única mulher entre os imigrantes latino-americanos do grupo que concordaram em falar com a CBS. Os demais são procedentes de países como Colômbia, Guatemala, Honduras e Venezuela. Também há pessoas originárias de outros países africanos, entre eles Camarões e Eritreia. Nenhum dos 15 é cidadão da Libéria.
O grupo foi colocado em um hotel de três andares em uma região costeira e afastada de Monróvia. A transferência faz parte da política do governo Donald Trump de utilizar terceiros países como destino para determinadas pessoas que não podem ser removidas diretamente para seus países de origem.
Uma brasileira no centro de uma nova política
O caso de Paola ajuda a ilustrar uma mudança importante na política migratória americana.
Tradicionalmente, uma pessoa submetida a uma ordem de remoção é enviada para seu país de nacionalidade ou para outro destino permitido pelas autoridades migratórias. A política de terceiros países cria uma situação diferente: o imigrante pode ser retirado dos Estados Unidos e enviado para um país com o qual não possui nacionalidade, família ou vínculos anteriores.
Segundo a CBS, a maioria dos deportados entrevistados havia obtido proteção em tribunais de imigração americanos que impedia sua remoção para os países de origem por causa do risco de perseguição ou tortura. Essas proteções, contudo, não significavam necessariamente que os beneficiários tivessem recebido residência permanente ou outro status migratório definitivo nos Estados Unidos.
É justamente essa distinção que permite ao governo americano sustentar a remoção para um terceiro país em determinadas situações: a pessoa pode estar protegida contra o retorno ao país de origem e, ao mesmo tempo, não possuir um status permanente que lhe dê direito de permanecer nos Estados Unidos.
“Eu poderia estar em perigo”
Outros integrantes do grupo relataram à CBS a dificuldade de imaginar uma vida na Libéria.
O hondurenho Elvis Rodriguez Venturas, por exemplo, tem quatro filhos nos Estados Unidos, dois deles cidadãos americanos, e uma esposa que permanece no Texas. Ele contou que os filhos perguntam diariamente quando poderá voltar.
Rodriguez Venturas disse que havia recebido proteção de um juiz de imigração que impedia sua remoção para Honduras por causa do risco que enfrentaria no país. Segundo ele, essa proteção também havia permitido que trabalhasse legalmente nos Estados Unidos antes de ser detido pelo ICE.
Outro deportado, o venezuelano Carlos Tellez Sanchez, trabalhava com venda de carros e entregas de comida na região de Dallas antes de ser detido pelo ICE. Sua mulher e seu filho, nascido nos Estados Unidos, permanecem no Texas. Ele disse à CBS que não considera seguro retornar à Venezuela.
Grupo diz que não foi informado sobre o destino
Os imigrantes entrevistados afirmaram à CBS que não foram informados pelo ICE de que seriam enviados à Libéria nem tiveram, segundo seus relatos, oportunidade de contestar especificamente a transferência para a África Ocidental.
O colombiano Arin Garcia Yepes resumiu o estranhamento provocado pelo destino: disse que nunca havia sequer ouvido falar da Libéria.
O governo liberiano informou que os estrangeiros enviados pelos Estados Unidos podem solicitar asilo no país. Nenhum dos entrevistados pela CBS, entretanto, demonstrou intenção de permanecer permanentemente na Libéria. Eles citaram, entre outros fatores, a pobreza, diferenças culturais e a ausência de autorização para trabalhar.
A Libéria informou em agosto que havia concordado em receber até 1.200 deportados de terceiros países dos Estados Unidos. Até o momento da reportagem da CBS, contudo, o voo de 20 de agosto era o único grupo recebido sob esse acordo: 15 pessoas, nenhuma delas liberiana.
O governo defende a política
O Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou à CBS que pessoas que estão ilegalmente nos Estados Unidos podem optar pela autodeportação e receber um auxílio de US$ 3 mil oferecido pelo governo.
Em comunicado, o departamento afirmou que a administração Trump está utilizando “todas as opções legais” para executar o que descreve como a maior operação de deportação da história dos Estados Unidos.
O Departamento de Estado, por sua vez, não forneceu à CBS detalhes sobre os acordos diplomáticos utilizados para as deportações a terceiros países.
A política já alcança mais de 30 países que aceitaram receber pessoas removidas dos Estados Unidos, segundo a CBS. Alguns desses países enfrentam pobreza, instabilidade política ou conflitos armados, o que acrescenta uma dimensão de segurança e proteção internacional à discussão.
Entre dois países
Para Paola, a questão deixou de ser apenas uma disputa sobre seu status migratório nos Estados Unidos. Agora, ela está em um país africano que não conhecia antes de embarcar.
A brasileira está entre pessoas que não podem, segundo decisões anteriores de autoridades migratórias americanas, ser simplesmente devolvidas aos países onde poderiam sofrer perseguição ou tortura. Ao mesmo tempo, essas decisões não lhes conferem necessariamente o direito de permanecer indefinidamente nos Estados Unidos.
É nesse espaço jurídico que a política de terceiros países está sendo aplicada.
A história de Paola transforma uma discussão abstrata sobre imigração em uma situação concreta: uma brasileira de 21 anos, retirada dos Estados Unidos e enviada para um país com o qual não tinha vínculo anterior, depois de descobrir seu destino somente quando o avião pousou em Monróvia, segundo seu próprio relato à CBS News.


