JUNOT
Washington, 17 de Junho de 2026 – Nas próximas semanas, a Suprema Corte americana não apenas encerrará seu período de sessões de 2026: ela revelará até que ponto está disposta a avalizar o projeto autoritário e disruptivo de Donald Trump em seu segundo mandato. O “June boom” não é mera formalidade jurídica. É o momento em que a Corte conservadora terá de decidir se atua como guardiã da Constituição ou como facilitadora de um Executivo que busca reescrever regras centenárias para adequá-las à própria narrativa política.
O caso mais grave é o da tentativa de abolir a cidadania por nascimento via ordem executiva. Assinada no primeiro dia de governo, a medida expõe o núcleo ideológico do trumpismo: a crença de que o presidente pode, por decreto, reinterpretar ou neutralizar dispositivos constitucionais inconvenientes. O 14º Aditamento, fruto da reconstrução pós-Guerra Civil, está sob ataque frontal. Mesmo com Trump presente na sessão – fato inédito e revelador de personalismo –, justices conservadores demonstraram desconforto.
Se a Corte validar a ordem, abrirá precedente perigoso: o Executivo passará a definir, unilateralmente, quem é americano. Mais de 250 mil crianças por ano viram reféns de uma política de imigração que flerta abertamente com reengenharia demográfica.
O tratamento dado ao Temporary Protected Status (TPS) revela outra contradição profunda. Sob o pretexto técnico de que tribunais não podem interferir, a administração busca desmontar um programa humanitário que protege populações fugidas de guerras e desastres. Os sinais dos argumentos de abril indicam que a maioria conservadora tende a conceder ampla margem ao governo. Na prática, isso significará deportações em massa de até 1,3 milhão de pessoas. A hipocrisia é evidente: o mesmo discurso law and order que Trump tanto celebra transforma a lei em instrumento seletivo de exclusão. Comunidades como a haitiana de Boston pagarão o preço real de decisões tomadas em gabinetes distantes.
No âmbito eleitoral, o ataque às cédulas por correio que chegam após o dia da votação desnuda o oportunismo. Trump continua a disseminar dúvidas infundadas sobre a integridade do sistema – sem nunca apresentar evidências consistentes de fraude –, enquanto tenta restringir mecanismos amplamente utilizados por eleitores. A inclinação conservadora observada nos argumentos de março sugere que a Corte pode reforçar a ideia de que só o voto presencial, no dia exato, é plenamente legítimo. Trata-se de uma conveniência política clara para quem transformou a contestação eleitoral em marca registrada.
O verdadeiro objetivo: poder sem freios
Os dois casos sobre poder de demissão presidencial são, talvez, os mais reveladores. Ao tentar afastar Rebecca Slaughter, da FTC, e Lisa Cook, do Federal Reserve, Trump busca concentrar autoridade sobre agências concebidas exatamente para serem independentes. Os conservadores parecem dispostos a derrubar precedentes históricos no caso da FTC. Já no Fed, até Brett Kavanaugh recuou, alertando que a medida poderia “enfraquecer, se não destruir” a credibilidade da instituição. Aqui fica clara a tensão interna do trumpismo: o impulso autoritário choca-se contra os limites que garantem estabilidade institucional e confiança dos mercados. A Corte terá de escolher entre ideologia e funcionalidade do sistema.
Na questão dos atletas transgêneros, a tendência é de validação das proibições estaduais. Mais de duas dezenas de estados já adotam o modelo. A Corte, que se mostrou protetora da liberdade de expressão em casos como o da terapia de conversão, caminha para priorizar critérios biológicos sobre autoidentificação. Trata-se de uma vitória cultural para a base conservadora, mas também de um recuo frente à agenda identitária progressista que, em muitos casos, substituiu evidências científicas por dogmas contidos nessa agenda.
Por fim, o debate sobre limites de gastos partidários expõe o cálculo cínico do jogo político. Os republicanos querem transferir poder dos super PACs para os partidos, facilitando a entrada direta de recursos de grandes doadores. A observação de Sonia Sotomayor – de que toda interferência da Corte no desenho congressional costuma piorar as coisas – funciona como advertência contra a judicialização permanente da política americana.
Em última análise, as decisões que estão por vir não são apenas técnicas. Elas definirão o grau de disrupção que o trumpismo ainda consegue impor ao sistema constitucional dos EUA. A maioria conservadora da Corte enfrenta um dilema existencial: servir como dique de contenção institucional ou como motor de transformação radical. O “June boom” de 2026 não decidirá apenas casos específicos. Decidirá o futuro equilíbrio entre democracia representativa e poder executivo concentrado no século XXI.


