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As eleições de meio de mandato realizadas em 3 de novembro provocaram uma mudança significativa na correlação de forças políticas dos Estados Unidos. Os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, encerrando a maioria republicana no Congresso e impondo ao presidente Donald Trump uma derrota que compromete sua capacidade de governar nos dois últimos anos do mandato.
O termo lame duck, ou pato manco, descreve precisamente essa situação. Não significa que o presidente tenha perdido seus poderes constitucionais ou que esteja impedido de governar. Significa que sua capacidade de aprovar projetos, negociar com o Legislativo e estabelecer prioridades nacionais fica consideravelmente reduzida quando o partido adversário controla o Congresso.
A nova composição do Congresso
Na apuração divulgada na manhã de 4 de novembro, os democratas haviam conquistado pelo menos 53 cadeiras no Senado, incluindo dois independentes que integram sua bancada, contra 41 republicanos em resultados já definidos. Atualizações posteriores elevaram a vantagem democrata para 54 contra 44, com duas disputas ainda sem definição.
Na Câmara, os democratas ultrapassaram os 218 representantes necessários para estabelecer maioria. A apuração parcial apontava 228 cadeiras para a oposição e 139 para os republicanos, com parte dos distritos ainda em processo de contagem.
A diferença é politicamente expressiva. Os republicanos chegaram às eleições controlando as duas casas legislativas. Agora, os democratas terão maioria nas duas instâncias, o que lhes permitirá controlar comissões, estabelecer a agenda legislativa e exercer maior fiscalização sobre o Executivo.
Os estados que produziram a derrota republicana
A derrota teve dimensão nacional, mas alguns resultados foram particularmente importantes por atingirem territórios tradicionalmente favoráveis aos republicanos.
No Senado, os democratas conquistaram sete cadeiras anteriormente ocupadas por republicanos: Maine, Iowa, Kansas, Texas, Ohio, Carolina do Norte e Carolina do Sul.
A vitória no Texas foi especialmente simbólica. O democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton, garantindo ao partido sua primeira vitória em uma eleição estadual para o Senado no Texas em 38 anos.
No Kansas, Adam Hamilton derrotou o senador Roger Marshall. O resultado encerrou um intervalo de quase um século sem que o estado elegesse um democrata para o Senado.
No Maine, Troy Jackson derrotou a republicana Susan Collins, que ocupava a cadeira havia cinco mandatos. Na Carolina do Norte, o democrata Roy Cooper também conquistou uma cadeira republicana.
Na Carolina do Sul, Annie Andrews venceu Darline Graham, enquanto, em Iowa, Josh Turek derrotou Ashley Hinson. Em Ohio, o democrata Sherrod Brown recuperou a cadeira que havia perdido anteriormente.
O avanço também apareceu nas disputas para governador. Os democratas conquistaram governos estaduais na Geórgia, em Iowa, no Texas e em Ohio, entre outros resultados importantes.
A dimensão geográfica da derrota indica que o resultado não ficou restrito aos estados tradicionalmente democratas. A oposição conseguiu atrair eleitores em regiões que haviam apoiado Trump em 2024.
O que muda na governabilidade
A nova composição do Congresso não retira de Trump seus poderes presidenciais, mas altera profundamente as condições para exercê-los.
Os democratas poderão bloquear projetos legislativos, dificultar a aprovação do orçamento, rejeitar indicações para cargos que dependem de confirmação do Senado e abrir investigações parlamentares sobre decisões administrativas do governo.
Na Câmara, a oposição terá instrumentos para convocar autoridades, exigir documentos e promover audiências sobre a atuação de departamentos federais.
No Senado, a nova maioria poderá dificultar a confirmação de integrantes do governo e de nomeações judiciais, além de exercer influência sobre a tramitação legislativa.
Isso não significa, entretanto, que Trump ficará impossibilitado de governar. O presidente mantém o poder de veto, o comando do Executivo e a autoridade para conduzir políticas dentro dos limites estabelecidos pela legislação.
A diferença é que precisará enfrentar uma oposição com capacidade institucional para impedir boa parte de suas iniciativas.
O futuro do ICE e da política migratória
Uma das questões mais importantes será o futuro do Immigration and Customs Enforcement (ICE), agência federal responsável pela fiscalização migratória e por operações de detenção e deportação.
A vitória democrata não significa que o ICE será automaticamente extinto.
A agência foi criada por lei federal, em 2003, e sua extinção dependeria de aprovação legislativa. Um projeto nesse sentido precisaria passar pelas duas casas do Congresso e receber sanção presidencial ou alcançar os votos necessários para derrubar um eventual veto.
Além disso, mesmo com maioria democrata, não existe consenso dentro do partido sobre a eliminação da agência.
A diferença ficou evidente na própria disputa eleitoral do Michigan.
Abdul El-Sayed, médico e político progressista de 42 anos, venceu o republicano Mike Rogers e conquistou uma cadeira no Senado. Sua eleição tem significado histórico: ele será o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira no Senado americano.
El-Sayed defendeu explicitamente a extinção do ICE, argumentando que a agência deveria ser desmontada e substituída por uma estrutura diferente de fiscalização migratória. Sua posição, entretanto, não representa necessariamente a de todos os democratas.
Durante a disputa interna do partido, outras candidatas defenderam a manutenção do órgão, acompanhada de reformas, fiscalização mais rigorosa e restrições às suas operações.
Portanto, embora a nova maioria possa investigar operações migratórias, alterar dotações orçamentárias e estabelecer mecanismos de controle, a extinção do ICE está longe de ser uma consequência automática da eleição.
O crescimento da esquerda progressista
A eleição também revelou o fortalecimento de uma corrente mais à esquerda dentro do Partido Democrata.
A vitória de El-Sayed no Michigan é um exemplo dessa transformação. Sua plataforma inclui propostas como assistência médica universal, aumento da tributação sobre grandes fortunas, restrições ao financiamento empresarial de campanhas e mudanças profundas na política migratória.
Ele não está isolado nesse movimento.
O crescimento político de figuras como Alexandria Ocasio-Cortez e o prefeito eleito de Nova York, Zohran Mamdani, demonstra a capacidade dessa corrente de mobilizar eleitores, especialmente jovens e setores urbanos.
A esquerda comunista procura deslocar o debate democrata para temas como desigualdade econômica, serviços públicos universais, criação e aumento de impostos, direitos trabalhistas e oposição às políticas migratórias de Trump.
Entretanto, seria equivocado considerar que todos os candidatos democratas eleitos compartilham o mesmo programa. Parte das vitórias ocorreu com políticos de perfil moderado, que concentraram suas campanhas no custo de vida, na economia e na necessidade de estabelecer limites ao poder presidencial.
Essa diversidade será um dos principais desafios da nova maioria: transformar uma coalizão eleitoral heterogênea em uma força parlamentar capaz de estabelecer prioridades comuns.
Um Congresso de oposição para os dois últimos anos
O resultado de 3 de novembro representa mais do que uma derrota circunstancial do Partido Republicano. É uma mudança na estrutura de poder em Washington.
Trump continuará presidente até janeiro de 2029, mas terá de conviver com um Congresso controlado pela oposição a partir de janeiro de 2027.
Os democratas, por sua vez, terão a oportunidade de demonstrar se conseguem transformar a vitória eleitoral em uma agenda legislativa consistente ou se ficarão concentrados na fiscalização e no enfrentamento político ao presidente.
Para Trump, o desafio será administrar um governo sem maioria parlamentar, diante de investigações, possíveis bloqueios orçamentários e dificuldades para aprovar novas medidas.
A eleição também oferece um primeiro indicativo da disputa presidencial de 2028. A oposição demonstrou capacidade de avançar em territórios republicanos, mas ainda precisará conciliar suas diferentes correntes ideológicas.
O presidente não perdeu o mandato. Perdeu, porém, uma das principais condições políticas para exercê-lo com liberdade: o controle do Congresso.


