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PLYMOUTH (Massachusetts) — O julgamento de Lindsay Clancy, acusada de estrangular os três filhos em janeiro de 2023, retomou nesta segunda-feira (3 de agosto de 2026) com novos depoimentos de policiais e médicos que atuaram na cena do crime. Após uma primeira semana marcada por testemunhos emocionais do ex-marido Patrick Clancy, pela reprodução da ligação de emergência e por uma visita do júri à casa da família em Duxbury, a acusação continua apresentando provas de que ela agiu de forma intencional.
Clancy, hoje com 35 anos, ex-enfermeira de parto, admite ter matado Cora (5 anos), Dawson (3 anos) e Callan (8 meses) com elásticos de exercício enquanto o marido saiu para fazer compras. Em seguida, tentou suicídio, saltando de uma janela do segundo andar, e sobreviveu com paralisia da cintura para baixo. A defesa alega que ela sofria de psicose pós-parto grave (também chamada de psicose puerperal), condição rara que afeta a percepção da realidade. A acusação rejeita a tese de falta de responsabilidade criminal e pede a condenação por assassinato, o que pode resultar em prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
O processo, que se estende por várias semanas, mantém o foco no estado mental da ré e no tratamento psiquiátrico que ela recebeu nos meses anteriores aos crimes.
O padrão do filicídio: números que se repetem
O caso Clancy não é isolado. Nos Estados Unidos, dados consistentes do FBI indicam que pais e mães matam entre 450 e 500 crianças por ano — cerca de uma a cada dois dias. A estatística esconde histórias de desespero, isolamento e sofrimento profundo.
O padrão é marcante. No primeiro ano de vida, especialmente nos primeiros meses e no neonaticídio (primeiras 24 horas após o nascimento), as mães são as principais autoras: respondem por 50% a 60% dos casos, chegando a 80-90% entre recém-nascidos. A grande maioria envolve mães solo — jovens, em situação de vulnerabilidade, muitas vezes com gravidez negada ou indesejada, sem rede de apoio, sob pressão da pobreza, do estigma e da depressão pós-parto não tratada. O risco para elas é cerca de quatro vezes maior do que para mães casadas ou com companheiro.
Depois do primeiro ano, o cenário muda. Pais e padrastos passam a predominar, especialmente em crianças maiores de 6 ou 8 anos, respondendo por cerca de 55-60% dos filicídios. Os motivos mais frequentes incluem abuso físico crônico, vingança em processos de separação e violência doméstica. Padrastos aparecem como grupo de alto risco.
No Brasil, o quadro apresenta semelhanças, embora com subnotificação e marcas de desigualdade. Não há estatística nacional tão consolidada quanto a do FBI, mas os dados disponíveis mostram que o primeiro ano de vida também é o período mais vulnerável, com mães — sobretudo mães solo em contextos de pobreza extrema — mais presentes nos neonaticídios e infanticídios precoces. O Código Penal brasileiro reconhece o infanticídio cometido sob influência do estado puerperal.
Em crianças maiores, pais e padrastos lideram, frequentemente em contextos de separação litigiosa ou violência familiar. O Brasil registra milhares de mortes violentas de crianças e adolescentes por ano, e parcela significativa ocorre dentro de casa. A depressão pós-parto atinge até 25% das mães brasileiras — taxa superior à média global —, agravada por falta de apoio, isolamento e dificuldades de acesso à saúde mental.
Fragilidade humana e tragédias silenciosas
De um lado e de outro do continente, o que une esses números é a fragilidade humana. Mães e pais que, em momentos de colapso, cruzam uma linha que a maioria jamais imagina. A esmagadora maioria das mulheres com depressão pós-parto jamais faz mal aos filhos. Mas, quando o desamparo se acumula — sem rede de apoio, sem tratamento adequado, sem esperança —, o resultado pode ser uma tragédia irreparável.
Enquanto o julgamento de Lindsay Clancy avança em Massachusetts e outras investigações seguem seu curso, os dados lembram que por trás de cada estatística há uma criança que não teve chance de crescer e famílias que carregam, para sempre, o peso do impensável.
Fontes principais: Associated Press (atualizações do julgamento publicadas em 3 de agosto de 2026), dados do FBI sobre filicídios nos Estados Unidos e análises de padrões de infanticídio e violência doméstica no Brasil.


