NOVA YORK/ATLANTA, 13 de julho (JSNEWS) – Antonio Rattín em 1966. Diego Maradona em 1986. David Beckham em 1998. As partidas tornaram-se lendas do futebol. E nesta quarta-feira (15), Argentina e Inglaterra voltam ao palco da Copa do Mundo — pela primeira vez, em uma semifinal, com vaga na final de domingo em jogo.
O confronto, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, às 16h (horário de Brasília), reacende uma rivalidade histórica e futebolística que remonta a décadas. A morte recente de Antonio Rattín reviveu memórias de um dos capítulos iniciais dessa disputa. Em 1966, nas quartas de final em Wembley, o capitão argentino foi expulso, agarrou uma bandeira britânica ao deixar o campo e sentou-se no tapete vermelho destinado à Rainha Elizabeth, recusando-se a sair. Fãs ingleses o bombardearam com latas de cerveja. O técnico Alf Ramsey chamou os argentinos de “animais” — um insulto que a Argentina jamais esqueceu. A Inglaterra venceu por 1 a 0 e ergueu o troféu.
Vinte anos depois, no Estádio Azteca, em meio às feridas ainda abertas da Guerra das Malvinas (1982), Maradona brilhou. Seus dois gols eliminaram a Inglaterra: o polêmico “Mão de Deus”, um handebol que hoje seria anulado pelo VAR, e o sublime “Gol do Século”, com uma corrida alucinante driblando metade do time adversário. “Mais do que derrotar um time de futebol, era derrotar um país”, escreveu Maradona em sua autobiografia. “Sabíamos que muitas crianças argentinas haviam morrido ali, abatidas como passarinhos. Isso foi vingança.”
A relação entre britânicos e argentinos sempre oscilou entre admiração e ressentimento. Migrantes ingleses, especialmente ferroviários, trouxeram o futebol ao país no século XIX — influência visível em nomes como River Plate e Newell’s Old Boys, clube formador de Lionel Messi. Mas o futebol argentino ganhou contornos próprios nas ruas e potreros empoeirados: virtuosismo, astúcia e autossuficiência, em contraste com o fair play e a disciplina britânica, como observa o historiador Jonathan Wilson.
Economicamente, os britânicos investiram em bancos, ferrovias e exportação de carne dos pampas, criando laços quase coloniais. Outros esportes, como polo e rugby, também floresceram. Após 1986, os encontros em Copas seguiram dramáticos: empate com vitória argentina nos pênaltis em 1998 (com o cartão vermelho de Beckham) e triunfo inglês por 1 a 0 em 2002, com gol de Beckham.
Caminhos até Atlanta e o peso do presente
Ambas as seleções chegam após trajetórias de resiliência. A Argentina, tricampeã e defensora do título de 2022, liderou seu grupo com 100% de aproveitamento e superou adversários no mata-mata com viradas e prorrogações. Sob Lionel Scaloni, o time conta com a magia de Messi, maior artilheiro da competição até aqui, e uma espinha dorsal sólida.
A Inglaterra, comandada por Thomas Tuchel, avançou com viradas emocionantes, impulsionada por Jude Bellingham — autor de gols decisivos — e a liderança de Harry Kane. A torcida inglesa entoa “Wonderwall”, do Oasis, como hino de campanha.
Prováveis escalações:
- Argentina (Scaloni): Dibu Martínez; Molina, Romero, Lisandro Martínez, Tagliafico; Paredes, De Paul, Mac Allister, Enzo Fernández; Messi e Julián Álvarez.
- Inglaterra (Tuchel): Pickford; Konsa, Stones, Guehi, O’Reilly; Rice, Anderson; Saka, Bellingham, Gordon; Kane.
A Argentina vestirá azul, evocando diretamente o duelo de 1986. Scaloni minimiza o contexto extra: “É uma partida de futebol. Ponto final. Não vamos procurar mais nada.” O meia Rodrigo De Paul reconhece o simbolismo — “traz de volta muitas memórias por causa do que Diego fez” —, mas enfatiza o foco: “Queremos vencer e chegar à final.”
Nos vestiários argentinos, porém, os cantos revelam o sentimento coletivo: referências às Malvinas, a Maradona e a Messi. “Se você não pular, você é inglês”, ecoa das arquibancadas.
O jogo promete intensidade tática: a técnica e a experiência argentina contra a força física, transições rápidas e poder ofensivo inglês. Mais do que uma semifinal, trata-se de um capítulo vivo de uma rivalidade que mistura orgulho nacional, história compartilhada e paixão pelo futebol. O vencedor enfrentará o desfecho de França x Espanha na grande decisão.
Independentemente do placar, Argentina e Inglaterra prometem mais uma página inesquecível para a lenda desse clássico intercontinental. O mundo assiste.


