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BOSTON — As primárias de 1.º de setembro em Massachusetts reforçaram um traço antigo da política local: o eleitor democrata premia quem já exerce o cargo e reconhece a identidade do partido no Estado. A noite não redesenhou o mapa. Organizou-o.
O resultado de maior repercussão foi a vitória do senador Ed Markey sobre o deputado Seth Moulton. Markey, aos 80 anos, derrotou por cerca de 65% a 35% o colega de 47 anos que transformou a idade em argumento de campanha. Moulton falou em relevo geracional e se posicionou mais ao centro. O eleitorado da primária preferiu o histórico progressista do senador — Green New Deal, Medicare for All, apoio de Elizabeth Warren, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez — à tese de que o tempo no cargo já seria, por si, um problema.
Há, nisso, um sinal à esquerda radical. Não é, porém, um deslocamento geral. Markey venceu porque sua marca ideológica coincide com a base democrata de Massachusetts e porque a máquina do mandato ainda funciona. O mesmo eleitorado que o reconduziu não entregou a Câmara aos desafiantes progressistas. Richard Neal, no 1.º distrito, e Stephen Lynch, no 8.º, superaram rivais mais jovens e à esquerda. A mensagem foi seletiva: renovação só convence quando não esbarra em um titular com raiz local e identidade reconhecível.
No 6.º distrito, vaga aberta após a saída de Moulton rumo ao Senado, o recorte foi outro. Dan Koh, ex-assessor da Casa Branca de Joe Biden e com endosso ostensivo de Biden e Kamala Harris, venceu um campo fragmentado. Ali prevaleceu o perfil institucional, com dinheiro e aparato, não o candidato mais à esquerda. Massachusetts continua um Estado democrata de centro-esquerda consolidado, não um laboratório da franja.
O Partido Republicano cumpriu o calendário, sem alterar o tabuleiro. Michael Minogue derrotou Brian Shortsleeve por ampla margem e será o candidato a governador contra Maura Healey, indicada sem oposição. John Deaton ficou com a chapa ao Senado sem disputa interna. O dado estrutural, no entanto, é a fragilidade da oferta: em vários distritos da Câmara não houve candidato republicano competitivo. A primária serviu para nomear um adversário estadual, não para indicar crescimento de base nem reorientação ideológica.
Em Estado em que a primária democrata costuma decidir o ocupante do cargo, a noite de terça-feira teve um sentido claro. Do lado democrata, continuidade com ênfase progressista no Senado e contenção da esquerda na Câmara. Do lado republicano, chapa montada e horizonte estreito em novembro. Massachusetts não girou. Reafirmou quem já mandava e deixou à mostra, outra vez, o desnível entre as duas legendas.


