JSNEWS
A Divisão de Fiscalização do Mercado de Petróleo da Califórnia divulgou sua lista oficial de culpados pela alta nos preços dos combustíveis: o presidente Donald Trump, o Irã e as distribuidoras de marcas conhecidas, como a Chevron, acusadas de conspirar para “aumentar a dor no tanque”.
O que o relatório omite, com notável conveniência, é o papel central do governador Gavin Newsom (democrata), que durante anos transformou a Califórnia em um dos ambientes mais hostis dos Estados Unidos à produção de energia. Impostos, regulações excessivas, processos judiciais e uma retórica belicosa contra o “Big Oil” não aparecem no documento.
O relatório ignora deliberadamente o imposto estadual sobre combustíveis mais alto do país — US$ 1,40 por galão —, que faz o governo da Califórnia ganhar mais por litro vendido do que as próprias refinarias que produzem a gasolina. Esse valor ainda não inclui os custos adicionais das exigências ambientais exclusivas do estado, do sistema de cap-and-trade, das restrições a refinarias e das ações judiciais bilionárias movidas contra a indústria de óleo e gás.
Há poucas semanas, Newsom publicou nas redes sociais uma mensagem amplamente ridicularizada, pedindo que os californianos boicotassem postos da Chevron e optassem por “gasolina sem marca”. Agora, o órgão supostamente técnico do estado chega à mesma conclusão: o problema seria de marca, não de política pública.
Os fatos, porém, estão registrados nos documentos oficiais. Desde que intensificou sua cruzada, Newsom editou ordens executivas para proibir a venda de veículos novos a gasolina a partir de 2035, restringiu perfurações, ampliou metas de redução de emissões, prorrogou o Cap-and-Trade e o Low Carbon Fuel Standard até 2045 e processou a indústria de petróleo por bilhões de dólares, acusando-a de “mentir aos consumidores por mais de 50 anos” sobre mudanças climáticas. Chegou a dar aos reguladores o poder de aplicar multas quando os lucros das empresas “subirem demais”.
Resultado previsível: a Califórnia perdeu cerca de 20% de sua capacidade de refino em poucos anos. A Phillips 66 fechou sua refinaria em Los Angeles em 2025; a Valero paralisou operações em Benicia, na Baía de São Francisco; a ExxonMobil saiu completamente da produção onshore em 2023. Milhares de empregos foram eliminados, e a oferta interna de combustíveis encolheu.
Pior: os padrões exclusivos de combustível da Califórnia transformaram o estado em uma “ilha energética” isolada, onde a gasolina fabricada localmente não pode ser facilmente substituída por suprimentos de outros estados. Qualquer interrupção em refinaria vira crise imediata para o consumidor.
Outrora um dos maiores produtores de petróleo dos EUA, a Califórnia hoje importa 60% do petróleo bruto que processa, com cerca de 30% vindo do Oriente Médio. A dependência de fontes estrangeiras, agravada por políticas internas, expõe o estado a choques geopolíticos exatamente como os que agora são usados para desviar a atenção.
Newsom encontra-se, assim, em posição política insustentável. Após tratar a indústria de petróleo como inimiga pública número um, colhe as consequências previsíveis: refinarias fechando, produção encolhendo e motoristas pagando alguns dos preços mais altos dos combustíveis no país. Em vez de rever as políticas que desmontaram a infraestrutura energética do estado, o governador prefere apontar o dedo para Trump, para o Irã e para as marcas que ainda operam na Califórnia.
O relatório da Divisão de Fiscalização do Mercado de Petróleo é, nesse contexto, menos uma análise técnica do que um exercício de transferência de responsabilidade. Os californianos pagam caro — no tanque, no custo de vida e na competitividade econômica — pelo experimento ideológico conduzido por seu governo. Nenhuma lista de vilões externos consegue apagar o registro público das escolhas que tornaram a Califórnia o que é hoje.


