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Mais de 12 mil pessoas, entre crianças migrantes desacompanhadas, seus responsáveis e outros moradores do mesmo domicílio, foram detidas pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE) durante o segundo mandato do presidente Donald Trump, após o recebimento de informações do Escritório de Reassentamento de Refugiados (ORR). Os dados internos do governo, obtidos com exclusividade pela agência Reuters e divulgados em 28 de julho de 2026, revelam a dimensão inédita do compartilhamento.
Desde janeiro de 2025, o ORR enviou ao ICE mais de 460 mil “pistas” sobre menores que chegaram sozinhos à fronteira, seus patrocinadores — geralmente pais ou parentes (que moram nos Estados Unidos e se apresentam para assumir a guarda e a responsabilidade pela criança em território americano) — e demais membros das residências. A prática representa uma mudança radical em relação à política anterior, na qual o cuidado das crianças era mantido separado da fiscalização migratória. Uma lei de 2008 previa que os menores fossem colocados no ambiente menos restritivo possível e liberados o mais rápido que a segurança permitisse, independentemente do status legal dos responsáveis. Assim, famílias podiam se reunir sem o temor imediato de serem alvo do ICE, mesmo residindo ilegalmente no país.
Sob a atual administração, as salvaguardas contra o compartilhamento de dados “foram completamente revertidas”, afirmou Jen Smyers, que foi diretora-adjunta do ORR no governo Biden. Segundo ela, a agência está “armando um programa de proteção à infância para fins de mais deportações”.
O ORR, criado em 1980 para reassentar refugiados e responsável desde o início dos anos 2000 pela acolhida de menores desacompanhados, declarou em nota à Reuters que “não desempenha nenhum papel na apreensão de crianças” e encaminhou as perguntas sobre fiscalização ao Departamento de Segurança Interna (DHS), órgão ao qual o ICE está subordinado. O DHS, por sua vez, informou que o ORR forneceu “pistas investigativas potenciais” à unidade de Investigações de Segurança Interna do ICE como parte de um esforço para localizar menores colocados com “patrocinadores não verificados”, incluindo alguns com antecedentes criminais.
O tempo médio de permanência das crianças sob custódia do ORR saltou de cerca de 30 dias no ano fiscal de 2024 para 194 dias em junho de 2026, segundo números da própria agência, em razão de exigências adicionais de triagem, como a coleta de impressões digitais de todos os moradores da casa.
Em um dos casos relatados pela Reuters, uma mãe mexicana de 24 anos que vivia ilegalmente no Mississippi conseguiu a liberação da filha de seis anos após mais de seis meses em abrigo. A menina havia se entregado sozinha às autoridades na fronteira. Dias após a reunificação, em final de março, ambas foram detidas em um escritório do ICE e enviadas a um centro de detenção familiar no Texas, onde permaneceram três semanas. “Perguntaram se eu tinha algum problema nos EUA e eu respondi que não, porque não fiz nada de errado. Tudo o que faço é trabalhar”, contou a mulher. Após a soltura, ela passou a usar monitor eletrônico no tornozelo e teme a deportação. A filha, segundo a mãe, ainda acorda à noite chorando, achando que continua detida.
Em outra situação, uma mulher guatemalteca que havia se estabelecido no Texas com o filho mais novo conseguiu a liberação do filho mais velho após quatro meses sob custódia do ORR. Dois meses depois, agentes do ICE a prenderam junto com o companheiro, à mão armada, quando saíam de casa para o trabalho. A mulher, que havia fornecido documentação completa e impressões digitais por não ter antecedentes, descreveu o episódio como traumático. O filho mais velho ficou responsável pelo irmão de seis anos e agora enfrenta ordem de deportação.
Advogados que atuam na área relatam um aumento de prisões de patrocinadores e de pessoas que estavam no mesmo endereço. O DHS confirmou detalhes de alguns casos, mas não esclareceu plenamente a origem das informações que levaram às localizações nem a natureza de eventuais mandados criminais citados.


