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Mais de 29 mil policiais estaduais e municipais foram habilitados para atuar em ações de fiscalização migratória nos Estados Unidos desde janeiro de 2025, segundo levantamento divulgado em outubro pela organização FWD.us. O número supera o contingente de aproximadamente 11,6 mil agentes de deportação empregados diretamente pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e evidencia a expansão da cooperação entre o governo federal e as forças policiais locais durante a administração de Donald Trump.
O estudo analisou o programa 287(g), que permite ao ICE delegar determinadas funções migratórias a agentes estaduais e municipais mediante acordos específicos. Criado na década de 1990, durante o governo de Bill Clinton, o mecanismo ganhou escala a partir do retorno de Trump à Casa Branca.
Segundo a FWD.us, mais de 47 mil prisões relacionadas à imigração foram realizadas por agentes participantes do programa entre janeiro de 2025 e agosto de 2026. Flórida e Texas responderam, juntos, por aproximadamente metade das ocorrências registradas no país nesse período.
A expansão foi acompanhada de incentivos financeiros. Em julho de 2026, o Departamento de Justiça anunciou US$ 3 bilhões em recursos para ampliar a cooperação entre departamentos policiais, xerifados e autoridades federais. Os recursos podem financiar pessoal, veículos e equipamentos, conforme as regras dos programas.
No modelo conhecido como Task Force, policiais habilitados podem realizar determinadas ações de fiscalização migratória, inclusive prisões, dentro dos limites estabelecidos nos acordos. Para Felicity Rose, vice-presidente de pesquisa e políticas públicas da FWD.us, os incentivos financeiros ajudam a explicar o crescimento das parcerias. Ela também aponta uma mudança na estratégia federal, com maior utilização de agentes locais em abordagens rotineiras, inclusive nas rodovias, em vez da concentração exclusiva em grandes operações urbanas.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) defende o programa como instrumento de combate à criminalidade e à imigração irregular. Organizações de defesa dos imigrantes, por outro lado, alertam para os efeitos da fiscalização sobre comunidades que passam a temer abordagens policiais.
A expansão também alcançou estados menos associados a políticas migratórias rigorosas. Em Wyoming, agentes participantes do programa responderam por 77% das prisões migratórias em abril de 2026 e por mais de 60% ao mês desde novembro de 2025, segundo o levantamento. Em New Hampshire, a proporção chegou a 60% em junho. Em Oklahoma, policiais estaduais e municipais realizaram quase metade das detenções migratórias naquele mês.
No caso de Oklahoma, a inclusão dos agentes da Patrulha Rodoviária no programa ampliou a possibilidade de fiscalização migratória durante abordagens nas estradas. Gabriela Ramirez-Perez, analista do Oklahoma Policy Institute, afirmou à NPR que o aumento das operações tem provocado receio entre imigrantes, levando algumas pessoas a alterar suas rotinas para evitar dirigir.
Em Massachusetts, a direção é diferente. Em agosto de 2026, a governadora Maura Healey sancionou a PROTECT Act, legislação que restringe novos acordos 287(g) e limita a participação de órgãos estaduais e municipais na fiscalização migratória civil. A lei prevê exceções específicas, sujeitas a condições e controles, e não impede a investigação de crimes estaduais nem o cumprimento de obrigações legais.
A diferença entre os estados evidencia o peso das decisões locais na política migratória americana. Enquanto Flórida e Texas ampliaram a cooperação com o ICE, Massachusetts estabeleceu barreiras legais a novas parcerias. O resultado é um sistema em que a capacidade de fiscalização federal depende cada vez mais da adesão — ou da resistência — das autoridades estaduais e municipais.


