JSNEWS
Washington – A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que autoriza o governo a retirar o Temporary Protected Status (TPS) de centenas de milhares de imigrantes, principalmente do Haiti e da Síria, já começa a produzir efeitos concretos em um dos segmentos mais vulneráveis da economia americana: a assistência médica e o cuidado de longa duração para idosos.
Hospitais, casas de repouso, centros de cuidados paliativos e empresas de atendimento domiciliar alertam para a possibilidade de perder milhares de profissionais experientes, o que pode intensificar a crônica escassez de mão de obra que o sistema de saúde americano enfrenta há anos.
De acordo com dados do KFF (antigo Kaiser Family Foundation) de 2023, imigrantes representam cerca de 24% da força de trabalho em residências para idosos, 21% em centros de enfermagem especializada e entre 32% e 40% nos serviços de atenção domiciliar. Muitos desses trabalhadores são beneficiários do TPS, que lhes garantia residência e autorização legal para trabalhar.
Organizações do setor, como a LeadingAge, a American Seniors Housing Association (ASHA) e a Argentum, classificaram o cenário como “crítico”. Katie Smith Sloan, presidente da LeadingAge, afirmou que o pessoal que cuida diariamente dos idosos pode perder o emprego de uma hora para outra, sem que haja reserva imediata de substitutos.
“Não existe um estoque de trabalhadores capazes de substituir relações construídas ao longo de anos”, disse Sloan. Algumas instituições já admitem a possibilidade de limitar novas admissões, reduzir serviços ou até fechar alas inteiras até conseguirem reposição.
A escassez não é nova, mas a decisão judicial chega em um momento especialmente delicado. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) projeta que a demanda por assistentes de enfermagem deve crescer 44% entre 2023 e 2028, impulsionada pelo envelhecimento acelerado da população americana.
Um problema que vai além da imigração
Especialistas enfatizam que o desafio não se restringe à questão migratória. A American Business Immigration Coalition (ABIC) aponta que cerca de 15% dos trabalhadores da saúde sem cidadania americana dependem de algum tipo de proteção migratória, como o TPS. Entre os haitianos nos EUA, mais de 20% atuam no setor de saúde.
Rob Liebreich, presidente da Goodwin Living, resumiu o dilema durante evento da ABIC: “Temos um problema matemático. Cada vez haverá mais idosos precisando de cuidados e menos pessoas disponíveis para prestá-los”.
As entidades do setor preveem consequências diretas: aumento de custos com horas extras, maior dependência de agências de contratação temporária (mais caras) e risco de elevação nos preços dos serviços. Para os pacientes, o temor é de filas maiores, redução na qualidade do atendimento e dificuldade de acesso, especialmente em regiões com maior concentração de imigrantes.
A decisão da Suprema Corte, tomada por 6 a 3, reforça a linha do governo Trump de endurecimento nas políticas migratórias. O TPS para o Haiti foi criado após o terremoto de 2010 e renovado sucessivas vezes por razões humanitárias. Agora, milhares de beneficiários podem enfrentar a perda da proteção legal e o risco de deportação.
Enquanto o governo federal defende a medida como necessária para controlar a imigração, provedores de saúde e associações de idosos alertam que o custo humano e econômico pode ser elevado — não apenas para os trabalhadores afetados, mas para milhões de americanos que dependem desses serviços essenciais.
O desdobramento prático da decisão ainda será acompanhado nos próximos meses, mas o alerta do setor já é claro: em um país que envelhece rapidamente, retirar mão de obra experiente de áreas críticas pode agravar um problema estrutural que não se resolve apenas com restrições migratórias.


